COMENDO ESCONDIDO


Miguezim de Princesa

I
Antes de fazer milagre,
Curando quem sentia dor,
João de Deus fazia dinheiro,
Ainda com mais fervor,
Contrabandeando urânio,
Um santo minerador.
II
Foi preso em 85
Lá no Norte de Goiás,
Ganhou mais de R$ 3 milhões
Escavando com as pás
E mandando pro exterior,
E ainda queria mais.
III
Viu que era perigosa
Essa vida de mineiro,
Mudou-se pra Abadiânia,
Com seu povo hospitaleiro,
E disse: “Vou curar gente,
Que o serviço é mais maneiro!”.
IV
As pessoas lá chegavam
Tremendo, passando mal,
O médium fechava os olhos,
Passava a mão no canal
E terminava fazendo
A cura espiritual.
V
Rollemberg, seu discípulo,
Achava ele bacana,
Mas João de Deus fracassou,
Numa reza sobrehumana,
Para ver se Rollemberg
Parava de tomar cana.
VI
João de Deus, no comecinho,
Fazia tudo na linha,
Mas um dia chegou no templo
Uma gringa bem branquinha
Dizendo que tinha um fogo
Infernal na bacurinha.
VII
– Vou pagar esse fogo! -,
Prometeu ele ligeiro,
Mas em vez de jogar água
Por cima do fogareiro,
Jogou um feixe de lenha
E faísca no braseiro.
VIII
A gringa deu uma carreira
Com a coisa chamuscada,
Queimou 400 graus,
Não sentiu ela mais nada
E pelo mundo espalhou
Que tinha ficado curada.
IX
De outra fez diferente
Com uma moça de Goiás,
Que se dizia possuída
Pelo diabo Ferrabraz,
Era o Cão na dianteira
E João de Deus por detrás.
X
Agora que a polícia
O caça como bandido,
João de Deus fugiu com a gringa
Pras bandas de Rio Comprido,
E as más línguas espalham
Que ele come escondido.

 

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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