Da nova série “Os Campeões da Informação” : Jair Santana, o “Boca Quente”

Quando Jair Santana morreu e alguém telefonou dando a notícia, chamei o informante de mentiroso.

No mesmo dia, o radialista Maurilio Batista esteve perto do corpo inerte de Jair, na casa de velório. E só acreditou que ele estava morto depois de lhe dar um beliscão.

Jair gostava de aprontar. E bem que poderia estar aprontando naquela coisa de sua morte.

O chamado “Boca Quente” mexia com os brios dos poderosos e causava coceira nos colegas.

Quando ele abria o berreiro, só escapava quem avoava.

Por isso ninguém acreditou que tivesse morrido.

Podia ser mais uma presepada do “negão”.

Mas não foi.

O pulmão o levou para o outro mundo, encerrando aqui na terra uma carreira curiosa de um comunicador diferente.

Convivi com ele, aprendi com ele umas coisas e outras não.

Jair era complicado nas suas atitudes e era, convém dizer, um jornalista que transmitia amor e ódio.

Alguns gostavam dele, outros não.

Eu gostava.

Testemunhei vários episódios da sua vida, uns engraçados, outros trágicos, ou quase trágicos, corrijo.

Como aquele da sua briga com Zé Maria Fontenelli, quando levou uma furada no bucho depois de bater boca com Zé Maria e logo mudou de cor, com medo de morrer.

Ou então o famoso duelo com Anacleto Reinaldo, ele de um lado apontando um revólver para Anacleto e Anacleto do outro, riscando a faca no chão, um dizendo de lá “não venha”, o outro respondendo de cá, “não venha você”.

Mas a mais hilária passagem da sua trajetória jornalística aconteceu na Assembléia Legislativa.

Jair, portando enorme gravador, chamou o deputado Waldir Bezerra para uma entrevista. Depois das perguntas e das respostas, chorou no seu ouvido que estava sem o dinheiro da feira.

Waldir costumava carregar dinheiro nos dois bolsos do paletó. Num bolso, transportava os trocados, no outro, os graúdos.

Sem prestar atenção, botou a mão no bolso dos graúdos e puxou uma nota de 50. E só notou o engano quando Jair segurava na ponta da nota.

Aí ficaram os dois, Waldir dizendo “não é esta não” enquanto puxava a nota de volta, e Jair respondendo “é esta sim”, ao mesmo tempo em que puxava a nota para o seu lado.

No final, Waldir desistiu e Jair foi, feliz, fazer sua feira.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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