Naquele tempo é que era bom


No tempo de antigas eleições eu gostava de tirar bundão nas nêgas que desciam da Serra do Gavião para comer carne de boi na casa de Seu Mano. Sim, senhor, naquele tempo o candidato gastava dinheiro do bolso para dar carne cozinhada com farofa ao eleitor. Menos mal do que hoje com as proibições das leizes, que obrigam o eleitor votar de barriga vazia. Bem dizia Chico Rolim, quando respondia ao assessor sobre as “leizes” e garantia que elas eram “como os alobisomens, a gente sabem que inxistem, no entrequanto num hai”.

O candidato não comprava o voto pura e simplesmente. Investia. Em carne de boi com farofa, que era um investimento seguro, com retorno certo, notadamente nos dias seguintes ao do regabofe, quando o comedor voltava para casa levando no bucho o estrume para sua horta. Era uma festa e dela participei. Menino safado, comendo do boi, lambendo os beiços e querendo mais, ainda mais aproveitando a fila para esfregar as safadezas nascentes nas bundas carnudas vindas da serra com cheiro de mato.

Seu Mano matava para mais de 15 bois na véspera da eleição. A carne era cozinhada em tachos grandes, de ferro. A fumaça que saia pela chaminé da cozinha de Maria Aurora chamava a atenção. E o cheiro forte do tempero de Maria Mumbaça deixava a turma com água na boca. Tinha gente que passava os três dias anteriores ao pleito sem comer nada, somente para deixar as tripas desimpedidas e prontas a receber aquele manjar do céu. E tome carne, carne pura e com farofa. Tinha alguns que dispensavam a farofa. Pra que farinha, que se come todo dia a preço de tostões, quando tem carne maciça, coisa rara, pudim de rico, produto que alguns conheciam somente quando pegavam na peia na hora da mijada?

O pessoal dos Pereira também matava os seus bois e fazia seu regabofe. Minininha cozinhava e chefiava a cozinha, Cícero Bezerra fiscalizava a fila para evitar os que comiam e repetiam a dose. Mas quem diabo conseguia fiscalizar tanta gente?

Os mais espertos só votavam no fim do dia, quando não havia mais tripa seca no bucho. Saiam da comilança com os buchos azuis, soltando peidos e arrotos chocos, uns correndo para o beco do colégio para despejar toletes roliços e amarelos, outros passando mal, como passou Zé de Bií, cabra comedor, primo de Luiz Mofeta, outro desgramado na arte de engolir carne de boi. Zé de Bií chegou a desfalecer na calçada de Genésio Lima. Os olhos vidrados, deram-no como morto. Foi quando dona Inês lembrou-se de fazer um chá de boldo. Chá feito, chícara encostada na venta de Zé, este mais morto do que vivo sentindo o cheiro e ouvindo dona Inês aconselhar: -“Beba, Zé, é um chazinho de boldo”, e ele, quase sem fala, balbuciando, a responder: “Cadê a bolacha?”

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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