Minha mãe morreu sozinha. E nem digo que morreu sozinha num quarto de hospital, porque a ela foi negado esse privilégio. Morreu numa enfermaria coletiva, deitada numa cama miserável do hospital Edson Ramalho.Ela não tinha plano de saúde, não tínhamos como bancar um plano tipo Unimed, e sua doença, que já durava meses, havia consumido as poucas economias do filho. Meu irmão Edmilson, que na época prestava assessoria ao então governador Zé Maranhão, pediu que ele conseguisse uma vaga no Edson Ramalho para dona Emília e Zé Maranhão destinou-lhe a enfermaria coletiva.

Lembro que na véspera de sua morte ela me pediu, e aos outros filhos que a visitavam, para ir embora. Era um domingo, tarde de visitas. Prometeu que não daria trabalho. Mal falava, apenas balbuciava. Nós dissemos que ela ficaria melhor no hospital. Ela, como sempre conformada, aceitou seu castigo. E morreu na madrugada da segunda-feira.

Minha mãe ficou sozinha com a morte do meu pai. Até então, os dois se faziam companhia. Quando papai morreu, ela veio embora para João Pessoa e foi morar numa casinha do Conjunto Ernesto Geisel. No principio, nos reuníamos na sua casa aos domingos para comer bode com feijão verde. Depois ela foi ficando sozinha. Carlinhos, que morava com ela, morreu. Miguel, que também morava, foi embora para a Bahia. A outra irmã casou, todos casaram e dona Emília ficou só.

Nunca, porém, reclamou da vida. Ao contrário, quando aparecíamos lá, ela festejava. Abraçava, beijava e chamava por “meu filho”.

Até que veio o AVC, a paralisia quase parcial, a perda da fala.Minha irmã Dorinha carregou praticamente só o peso da sua doença. Levou-a para sua casa e cuidou dela o quanto pode. Mas ela foi piorando. De vez em quando o coração batia devagar, o Samu era chamado, prestava socorro e ela melhorava. Até que, uma noite, o jeito foi leva-la ao hospital, ao Edson Ramalho, à caridade entre aspas do indiferente governador. Ela passou uma semana naquela cama horrorosa e morreu.

Esta semana ouvi o jornalista Wellington Farias se derramar em prantos, durante o programa Correio Debate, porque não foi ver a sua mãe depois que ela ficou pra morrer. Era o choro do filho com desgosto e arrependido.

Esse remorso de Wellington também me persegue. Eu poderia ter sido mais frequente na vida da minha mãe. Achava que uma ajuda financeira, o dinheiro da feira e uma visita curta a cada oito dias eram o bastante. Hoje vejo que não eram. E sinto na pele ao perceber, junto com minha companheira, que estamos também ficando sós. Nossos filhos têm seus filhos e seus compromissos.E todos eles são mais urgentes do que esse compromissozinho de acompanhar os pais nas suas besteiras de velhos.

Que minha mãe, lá onde está hoje, tenha muitos anjos festejando o seu dia e lhe fazendo a companhia que lhe faltou em vida.

 




Comentários realizados

  • 14/05/2017 às 13:16

    JOSÉ VENTURA FILHO

    O AMOR DE MÃE Quando da criação do mundo e dos seus seres, Deus fez a mulher para propagar a espécie e, principalmente, semear o amor... Quero a ELE agradecer todos os dias pela oportunidade de ser fruto dessa criação tão divina e maravilhosa. Esse AMOR, puro e verdadeiro, se fez presente nos corações de todas as mães para, em um segundo, germinar o condão da concórdia; da abnegação; da proteção; da atenção; da compreensão; do perdão e de tantos outros sentimentos recheados em rios de ensinamentos e emoção... Em cada mãe, o brilho do seu olhar, revestido de certeza; de beleza; de serenidade; de espontaneidade; de vontade e de verdade, transforma-se em ações alicerçada, essencialmente, para o resto da vida... O seu sorriso já diz tudo que precisamos sentir, colorindo todos os passos do nosso dia a dia... O seu falar exprime a doçura; a confiança; a retidão e a segurança para seguirmos, sem qualquer medo daquilo que nos reserva... O seu choro nos alivia e tira todo o peso das nossas falhas; dos nossos erros; dos nossos pecados e das nossas angústias que por ventura venham a acontecer... As suas orações, feito facho de luz, nos conduz a um melhor caminho a ser trilhado ou ilhado, sem riscos ou perigos de vida, dando-nos o conforto da nossa jornada... Outras atitudes praticadas por algumas mães, distanciadas dos mandamentos cristãos, não se dão por deliberação própria, mas por infortúnio ou por momentos tresloucados de insegurança, doença ou momentos de aflições e, principalmente, por falta de oportunidades que essa sociedade lhes impõe, arrancando-lhes, severamente, a sua dignidade e capacidade de reação, chegando muitas às vezes a lhes tirar, injustamente, dos seus filhos o seu poder familiar... Assim, todos os Mandamentos divinos, graças à interseção da nossa Mãe, vieram nos alertar que devemos seguir, nesse plano, todos os princípios da Boa-aventurança, pregados pelo Nosso Criador, a fim de espalhar e semear o AMOR em prol de todos os nossos irmãos. José Ventura Filho MARIA – NOSSA MÃE A mãe de Jesus e dos nossos irmãos Que embala o som suave das canções Que falam do amor maior e tão puro, O dono de todas as nossas emoções... A mãe que cura todos os sofrimentos; Que acalenta e cicatriza a dor que for; Que planta as rosas em nossos jardins Para, enfim, exalar o perdão e o amor... A mãe que sempre quis e tanto quero; Que a tenho todos os dias ao meu lado; Que só me leva e me eleva em orações; Que me permite ser esse ser agraciado... A mãe completa da chama da ternura; Que ilumina de ventura os nossos dias; Que irradia, sem parar, as nossas sinas; Que nos ensina a enfrentar as agonias... A mãe que sempre nos elege e protege; Que nos acolhe e recolhe na hora certa, Que nos livra dos possíveis infortúnios; Que indica as nossas novas descobertas... A mãe que nos afaga e nos conduz ao Pai; Que em seu manto de ternura e candura Roga-lhe toda a misericórdia ao seu filho, Cheio de pecados, mas que tem sua cura. João Pessoa, 24 de abril de 2016 -22h48min. José Ventura Filho

  • 14/05/2017 às 12:04

    Hendrick

    Tião, possa ser que eu esteja enganado. Mas eu percebi no seu relato tristeza e um certo remorso e ainda também um recadinho aos seus filhos, para que eles se tornem mais presentes na sua vida e de sua esposa enquanto ainda tem a oportunidade de fazê-lo.

  • 14/05/2017 às 09:21

    Hermano José Toscano Moura

    Acho que morreu feliz e sem muitos sofrimentos .Talvez se as condições financeiras fossem outras,poderiam ter prolongado sua vida e seu sofrimento .Tude acontece como tem de acontecer! Abraços

  • 14/05/2017 às 07:34

    Dorinha

    Pois é Tião, também acho que poderíamos ter feito muito mais por ela e tenho a mesma sensação que nossa mãe morreu abandonada naquele hospital horroroso. Porém sei que de onde ela estiver, que com certeza é um paraíso, não nos abandona. Sinto ela sempre perto de mim.

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