Estou escrevendo meio aos trancos e barrancos um livrinho contando "Histórias e Estórias do meu sertão". Quando a preguiça consente, faço um capítulo aqui, outro ali, de modo que não sei quando vou terminá-lo. Enquanto isso não acontece, disponibilizo ao amigo e à amiga leitores do Boiga do Tião algumas linhas do que já está pronto, para vocês dizerem se o que pretendo fazer dá letra de samba ou não. Ei-los:

O CASO DO AMANTE QUE SE QUEIXOU AO CORNO

Assis Brabo revirou o baú do quarto antigo e dele tirou a 45 que ali dormia enrolada num pano velho. Fazia tempo que não a avistava, desde quando foi guardada, ainda com o cano quente, num distante tempo de mocidade. Agora precisava dela para lavar sua honra, honra de macho traído, enganado, trocado por outro pela mulher que lhe jurara amor e fidelidade.

Escondeu-a na cintura, botou o chapéu de abas curtas, ajeitou os óculos e partiu com a incerteza da volta guardada na alma. Andava agora pelas ruas da Torre, descendo para a Lagoa, e via-se nas ruas de Princesa, 40 anos atrás, menino imberbe, portando a mesma 45, buscando a mesma lavagem de honra de agora. Fazia tempo, o tempo agora voltava, as lembranças batiam nas batidas do coração. O clube, o povo dançando, Mirócenes Aruanda sentado na mesa da frente, ele entrando, puxando a arma e disparando cinco vezes no peito de Mirócenes, Mirócenes caindo, ele fugindo pelas serras de Carnaíba, a cidade ficando perto apenas nas suas lembranças, tudo isso voltava com a nitidez do presente quando se preparava para repetir tudo, em nome de uma honra que jamais o abandonara.

Neto de Ronco Grosso tinha que agir assim mesmo, dizia-se. O velho Ronco, cabra de Zé Pereira, jamais levou um desaforo para casa. Assis não trairia seu velho avô, principalmente nesse momento de ocaso da vida, quando os cabelos brancos substituiam os antigos cachos da mocidade.

A Lagoa do Parque Solon de Lucena lhe pareceu mais bela do que antes. Nunca tinha reparado nas suas águas mansas, na grama verde, nos bancos de pedra ao seu redor, nos casais em namoros amantes inspirados pela brisa que dali soprava. A cidade estava linda e ele ali vivia há anos sem notar tanta beleza.

Desceu a rua da Areia, rumando para o banco, seu destino. Desta vez não escutou a rapariga a lhe convidar para desmerréis de amor. Tinha uma missão a cumprir e não podia se dar ao desfrute de desvios no percurso, mesmo sendo desvios de chamegos.

Entrou resoluto, dirigiu-se à mesa do gerente e, sem dar bom dia, intimou:

-Quero uma conversa em particular com o senhor". O homem ficou branco, tremendo, sabendo que algo de grave estava acontecendo. Levantou-se, chamou o interlocutor para uma sala ao lado e suando de bica, preparou-se para o pior. Assis, sem perder a calma, olhou-o nos olhos e lançou a pergunta:

-O senhor é o marido de dona Francisca? O pobre homem apenas balançou com a cabeça. Diante da resposta, Assis completou:

-Eu sou amante dela e venho lhe comunicar que ela está me traindo com o doutor Geraldo. É uma vagabunda que lhe trai e me trai. O senhor viu quando ela chegou em casa, ontem, com os braços roxos?

-Vi, ela disse que tinha caído.

-Caiu nada. Foi uma surra que lhe dei para ela aprender a respeitar homem. Venho lhe contar porque o senhor, como marido, é quem deve tomar providência. Agora, se o senhor está achando ruim, diga, porque a gente resolve agora.

O homem, aliviado e agradecido, disse que não achou ruim. E ainda prometeu:

-Vou largar aquela puta, pode acreditar.

E Assis:

-Largue, mas largue logo, ouviu!

O FALANTE

Zé de Louro sempre foi falante desde menino. Nem precisou de escola para aprender a falar difícil, dizer coisas bonitas nos ouvidos de Lourenço, o pai orgulhoso que se deleitava escutando os devaneios do filho enquanto mexia a cocada de umbu com gosto de quero mais.

Zé falava bonito e tinha a voz bonita. As moças suspiravam ao seu cochicho. E quando as moças eram as do mato, então acontecia o deslumbramento. Habituadas as falas de seus noivos sobre roças e rolinhas cafôfas, desmunhecavam-se todas quando Zé de Louro declamava o encontro das duas sombras sob as cercas do avelós de Antonio Medeiros.

Zé não desgrudava do vocábulo nem mesmo nas horas árduas do trabalho braçal. Certa vez ia atravessar o açude do Jatobá e requereu os trabalhos de Beiçola, um crioulo que dirigia a canoa da travessia desde quando o sol botava a venta de fora, até o escurecer. Sabem como ele pediu os trabalhos do preto? Pediu assim: "Olá da Costa d`África! Quanto queres em remuneração pecuniária para me transportares deste pólo àquele hemisfério?"

 De outra feita, avistou "Viúvo", seu irmão caçula, tirando o leite da vaca,enquanto um belíssimo carrapato chupava o couro da pobre. Balançou a porteira do curral e alarmou, perguntando:" Meu amantíssimo irmão, o teu ângulo não está a divisar o animal peçonhento agregado à epiderme do animal bovino?"

Até para mandar o moleque da vizinha cumprir um recado, Zé não perdia a pose. Como não perdeu naquela vez, quando mandou o primo, filho de finado Luizinho, adquirir mercadoria na bodega de Zé Alvelino: "Oh primo! Ergue-te do teu leito e aproxima-te do teu cesto. Vai aquele mercado e compra um pouco daquela massa amarela, côncava e convexa, que os imbecis dão o nome de cuscuz!"

Acontece que Zé, numa ida a São Paulo, parou em João Pessoa para umas visitas e, passando pelo Centro Administrativo, entrou na farmácia de Nativo, um ex-caminhoneiro e feirante que, aposentado, resolvera vender remédio para se ocupar. Naquela tarde Nativo saíra para receber uns pedidos e deixara o sogro, Seu Nô, cuidando do estabelecimento. Seu Nô só conhecia o "Ó" que carregava na bunda, mas entendia de dinheiro e sabia os preços das mercadorias. Zé encostou no balcão e disse a Seu Nô, que estava acocorado arrumando umas caixas:

- Estou com uma dor na primeira vértebra, com ressonância na quinta e na sexta, passando pelo ilíaco até encostar, magoando, por onde passa a artéria femural, chegando na panturrilha".

Seu Nô soltou a caixa de sonrisal que arrumava, ajeitou os óculos na cara e disse a única coisa que conseguiu soltar de sua boca enorme:

-Cuma?

AUGUSTUS, O SOLIDÁRIO

Augustus nasceu Augusto há 26 anos. Trocou o "o" pelo "u", acrescentando em seguida o "s", depois que arranjou um emprego em repartição chique do Estado e mudou de status. Dos tempos do velho Cristo Redentor pouca coisa lembra, preferindo guardar na memória as bonanças dos tempos novos, dos passeios ao sertão em carro oficial e das danças de passo miúdo nos forrós cheirando a "suspiro de granada" lá dos cafundós.

A cara de menino esconde um presepeiro da marca maior. Sempre dá o bote e esconde a unha, deixando a vítima desprevenida e sem reação. Sua fama de galo cego corre léguas e na dita repartição todos o têm como uma mente brilhante.

Amigo dos amigos, nunca deixou um ao relento. Solidário como ele só, empresta seu apoio ao companheiro, mesmo que este se encontre alhures, sem poder vê-lo ou ouvi-lo.

Como o fez dia desses, lá na distante terra dos dinossauros. Estava Augustus num desses famosos forrós, fazendo sala para seu parceiro de farras "Mininim de Papai", quando bela moça se achegou e pediu, implorando:

-Augustus, quero lhe pedir um favor: quando chegar em João Pessoa não diga ao meu noivo que me viu aqui!".

Ele nem lembrava dela, tampouco do noivo.Depois é que teve ciência do caso daquele colega de trabalho que largou da mulher depois de conhecer linda morena sertaneja. Mas fez de conta que lembrava, principalmente quando descobriu que a dita estava na festa com um namorado novo, um pé de lã apalavrado. E, sem o menor gaguejo, fitou seus olhos, prometendo:

-Dizer eu não digo, mas você vai ter que dançar comigo da meia noite em diante, até o dia amanhecer.

Ela aceitou na hora. Assim que o namorado fosse embora, estaria a sua disposição. Promessa feita, promessa cumprida. A "noiva" do amigo de Augustus se desmanchou em gentilezas, dançou que foi uma maravilha, os dois encostadinhos, cabeça com cabeça, peito com peito, "quiabo" com "dobradiça", coxa com coxa, um esfregado que fazia Augustus desejar a morte daquele noivo ausente, para poder substitui-lo em toda sua plenitude.

Se algo aconteceu a mais naquela noite, o nosso herói não contou. Ele é muito discreto. Mas ninguém deixou de notar sua cara de safado, o sorriso maroto e o olhar de sonhos quando foi abordado pelo noivo, na volta, e este perguntou se havia avistado sua amada lá nos interiores: 

-Avistei. Estava na missa".

 

 




Comentários realizados

  • 02/11/2014 às 14:11

    Jarbas Murilo (Serra Branca-PB)

    Caro Tião, não deixe de inserir no seu livro (ainda no prelo) aquela história em que Lula confundiu "Forro de Gesso" com "Forró do Gerson"... Um das mais hilárias que já ouvi! (rssss).

    Resposta de Tião

    Tá lá.

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