Era junho e chovia. O sertão saía da seca de cinco anos e tinha de volta o verde das gitiranas, do marmeleiro, da canafístula, das unhas de gato, do calumbi, das roças de milho em festas de pendões, do feijão de corda brotando da terra e das nuvens escuras descendo dos céus.

 

O cheiro de terra molhada voltou ao nariz do caboclo Zé de Vigó como uma coisa que jamais se afastou dele, um cheiro de ontem, de indagorinha, igualzinho ao gosto de angu com leite ou de cuscuz de milho.

 

Os olhos da meninada se alegravam com as correntezas que se formavam no meio da rua, a água descendo do céu e fazendo rios na terra até ontem rachada pelo azedume da seca.

 

E faziam, os meninos, os seus açudes de sonhos, represados pelas paredes de mãos e pelos sangradouros de bocas estendidas para recolher a água tão sonhada e tão em falta por tanto tempo.

 

Lá no horizonte distante, riscos de fogo marcavam o espaço do céu anunciando mais inverno.E para festejar o anúncio, trovões explodiam no firmamento, imitando os foguetões de Pedro Fogueteiro comemorando o São Pedro de seu nascimento.

 

Dava gosto ver o sorriso largo de João de Oliveira caminhando para a roça com a enxada nas costas, levando de roldão os filhos Né, Chico, Tonheca, Uda  e Tôta, todos decididos a vencer as berduegas, os capins e os matos enxeridos que invadiam as lavouras.

 

E ali perto, Zé Carnaíba levava seu cigarro de fumo Arapiraca à boca para mais um trago de felicidade, depois de fisgar uma traíra de lombo preto que enfeitaria o seu almoço domingueiro.

 

E mais ainda:Seu Musa mergulhava nas águas escuras da Pichilinga para o banho invernoso que lhe alumiava a pele retinta,lambuzada pela espuma do sapão patativa doado por Diolindo Mandaú.

 

Ali na Lagoa da Perdição, o sapo entoava seu canto de inverno, interrompendo o sono do notívago Antoim Coxim. Tozinho, cansado de tanto ligar e desligar o motor da luz, dormia sem se incomodar com os sapos ou com a tosse invocada do velho Fernandes, pai de Antonina.

 

E o berro de Zé Orestino, depois de beber um copo cheio de cachaça no bar de Chico Caetano, assombrava os moradores da Rua da Lagoa, que mesmo assim não o queriam distante por sabe-lo membro eterno da família inseparável de Princesa Isabel.

 

 

 

 




Comentários realizados

  • 16/05/2016 às 11:47

    Camilo

    Não conheço o lugar nem os personagens,mais as histórias são as mesmas,boas lembranças de um tempo que não volta mais.Obrigado Tião.

  • 15/05/2016 às 15:19

    Everaldo

    Alguns personagens são de saudosa memória, outros, ainda na labuta do dia a dia de Princesa. Valeu, "Velho Tião", por me fazer reviver bons momentos de ontem. Um abraço!

  • 15/05/2016 às 11:21

    RAIMUNDO DIAS VIEIRA

    Valeu Tião! Que boas reminiscências. É o mesmo que passar um filme.

  • 14/05/2016 às 22:27

    Marieta

    Eita, Sebastião velho de guerra !! Você agora me lascou de saudades. Eu sei que o tempo não retrocede, mas, é impossivel não reviver meus tempos de criança na Rua da Lagoa e depois no Cancao numa casinha localizada na parte mais alta, no caminho da cagepa onde meu pai trabalhava. Saudades !!!

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