O ministro Zé Américo era tido como sisudo, avesso a brincadeiras e a principio todos pensariam que dele seria impossível extrair algum causo. Ledo engano. Marcone Formiga, na década de 70, escreveu o delicioso Bastidores, que resgatei no Sebo e nele encontrei as pérolas do ministro que vão contadas a seguir:

Sumitério e suminário
O ministro José Américo de Almeida foi participar de algumas solenidades de inauguração no município de Antenor Navarro. A cidade inteira preparou-se para recebê-lo. Ruas com bandeirolas, a banda de música tocando, e o povo cercando o governador, sem deixá-lo andar. O prefeito Alexandre ficou impaciente, e lembrou:
-Governador, está na hora de inaugurar o sumitério.
-Não é sumitério, Alexandre. Diga cemitério – alertou o ministro.
-Isso é pro sinhô que istudô em suminário.

Longe e perto
Na seca de 1951, o prefeito José Dias, de Bonito de Santa Fé, conseguiu alguns gêneros alimentícios com uma entidade filantrópica pessoense e precisava de transporte para levá-los.
Recorreu ao governador Zé Américo, a quem pediu um caminhão.
-Mas, meu caro Duquinha, Bonito de Santa Fé é muito longe...
-Não senhor, fica no mesmo local onde o senhor foi pedir votos.

O croncris
O prefeito José Alexandre, de Antenor Navarro, veio pedir a José Américo ajuda para construção de um cemitério no seu município.
O governador assegurou-lhe a liberação da verba necessária, mas pediu que Alexandre apresentasse primeiro o croquis da área onde seria instalado o cemitério.
Um mês depois, Zé Alexandre apareceu no Palácio da Redenção. Com uma gaiola na mão, apresentava ao governador:
-Pronto, incelência, é o croquis mais cantador de toda a área.

Sem claudicar
Octacilio Queiroz escreveu um artigo violento contra Zé Américo. Publicado, estranhamente ele desapareceu. Não era visto no Ponto de Cem Réis, que freqüentava assiduamente, nem mesmo no local de trabalho ia mais. Despertou curiosidade sua ausência, e João Bernardo foi à Assembléia para fazer a revelação, alguns dias depois:
-Vi-o passando pelo Ponto de Cem Réis, de madrugada. Ia deslizando como uma nuvem, nem claudicava...

Luiz Jabuti
No início da administração do governador Ivan Bichara, quando ele ainda estava escolhendo seus auxiliares do terceiro escalão, os sobreviventes do governo passado recorreram a políticos, familiares e, principalmente, passaram a freqüentar muito assiduamente a casa do ministro José Américo de Almeida.
Um deles, Luiz Ferreira da Silva, ia diariamente à casa do ministro, chegando lá muitas vezes pela manhã e só saindo à noite, quando era hora de Zé Américo dormir.
O ministro costumava acordar às cinco horas da manhã e caminhar pelo jardim de sua casa. Em um desses dias, viu um vulto estranho no jardim e perguntou à sua secretária:
-Lourdinha, o que é aquilo? É um Jabuti?
-É Luiz Ferreira, ministro, que já veio aqui procurar o senhor.
A partir desse dia, ficou sendo chamado Luiz Jabuti.

Pedindo sementes
Raimundo Onofre conseguiu do governador Zé Américo, sem que ele soubesse, transferir, por perseguição política, um agente fiscal para Mamanguape, e sua esposa, que era professora, para Catolé do Rocha.
Quando soube que tinha sido perseguição de Raimundo, o governador mandou desfazer os atos. O casal voltou para Alagoa Nova, vencendo a parada.
Com a derrota, Raimundo Onofre ficou furioso. Foi ao Palácio da Redenção desabafar. Quando entrou no gabinete, Zé Américo já estava esperando. Não chegou sequer a falar qualquer coisa, pois o governador, com o dedo em riste, descarregou-lhe uma raiva que não estava prevista:
-...você ainda vem aqui no Palácio fazer reclamação!]
-Quem disse essa mentira, governador? Eu vim aqui foi pedir sementes – garantiu.

Leal e doido
Depois que o senador Ruy Carneiro fez as pazes com Zé Américo, Raimundo Onofre reservou as manhãs de domingo para visitar o ministro em sua mansão do Cabo Branco. Em uma dessas visitas, encontrou a casa com vários generais, todos do alto comando militar. Assim que entrou, o ministro apresentou-o aos oficiais:
-É o homem mais leal que eu conheço.
Raimundo, emocionado, agradeceu:
-Ministro, o senhor foi muito generoso. Eu não sou tudo isso que disse agora. Se alguém merece respeito é o senhor, que está com 91 anos, cercado por generais, que vêm mesmo é lhe pedir conselhos.
E o ministro, se voltando para os comandantes:
-Eu esqueci de dizer também que Raimundo às vezes é doido...

Brigando com o bispo
Sabendo que o governador José Américo estava furioso com ele, por ter tomado conhecimento de algumas atitudes suas, Raimundo Onofre procurou um meio de sensibilizá-lo, fazer com que esquecesse tudo e não o censurasse.
Encontrou um, que teve efeito. Entrou no gabinete do governador e, antes de cumprimentá-lo, foi logo dizendo:
-Governador, eu briguei com o bispo...

Sem perder de vista
Octacilio Queiroz fez outro artigo contra Zé Américo, na época em que o jornalismo pessoense era polêmico. O ministro então respondeu-lhe:
-Octacílio Queiroz é tão ruim que, se fosse bípede, voaria. Mas Deus, na sua imensa sabedoria, fê-lo cocho, atrasou-lhe o passo, para que o diabo não o perdesse de vista.

Sem cor
Irritado com Boto de Menezes, José Américo o definiu, assim, em público:
-Boto é uma figura de hospital. Tão sem cor, que os espelhos não refletem mais a sua imagem.

O remendo
Os aliados de Zé Américo em Campina Grande estavam tensos porque os adversários prometiam acabar o comício que seu grupo ia fazer na cidade. Quando Zé Américo estava falando, surgiu um tumulto no meio da multidão.
Alguém observou:
-É Pedro Sabino, ministro...
E Zé Américo:
-Pedro Sabino, que meu chefe de Polícia, Romulo Rangel, meteu na cadeia como desordeiro...
O assessor o interrompeu de novo:
-Não, doutor, não é Pedro Sabino. É Roldão Mangueira.
-Roldão Mangueira? Ah, ele não me perdoa por ter criado o Corpo de Bombeiros em Campina Grande.
Os inĩmigos de Roldão Mangueira o acusavam de provocar incêndios em seus depósitos de algodão para receber o seguro.

Velho, mas...
Logo que chegou ao distrito de Água Branca, onde ia participar de um comício, o ministro Zé Américo foi surpreendido com a observação feita por um correligionário:
-Doutô, o senhor está muito velho!
Em seguida, de outro ele ouviu o contrário:
-Cada vez mais jovem. Vendendo saúde, parece um menino...
O ministro aproveitou as observações dos amigos e disse no discurso que pronunciou em seguida:
-Quando aqui cheguei, na vossa terra, um amigo me apertou a mão e me dizia que estava velho. Depois, quase no mesmo instante, outro veio me cumprimentar para dizer o contrário. Ambos têm razão, porque envelheci a serviço do povo, e a seu serviço sinto-me jovem ainda
 

 




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