1-Na sexta-feira santa a gente jejuava de verdade.A comida de dona Emília só saía da panela para a mesa depois do meio dia. Até lá, jejum total em respeito à morte de Nosso Senhor Jesus Cristo. A meninada ficava com aquele olhar pidão, aquele róirói  na barriga, aquela vontade de visitar o fogão às escondidas e assaltar a panela, mesmo correndo o risco da reprimenda materna.

 

2-Hoje ninguém jejua. Até a carne foi liberada. A igreja liberou geral, sob o argumento de que o peixe está pela hora da morte e não chega à mesa do pobre. E é verdade, comer peixe é privilégio de rico. Ao pobre sobra apenas a opção de enganar o bucho com algumas piabas pescadas no açude, isso quando o açude não está seco.

 

3-E o bredo, tão gostoso e só lembrado na Semana Santa! Depois que passa a Semana Santa, ninguém se lembra do bredo, que é cozinhado ao leite de coco e é mais gostoso do que qualquer outro tipo de prato servido nos restaurantes mais chiques.

 

4-Na Semana Santa, papai comprava uma traíra de dois quilos, pescada pelo anzol de Zé Carnaíba, para ser cozinhada ao leite de gado na panela de barro e no fogão de lenha. Mamãe fazia a bicha com tanto gosto que só sobravam as espinhas.

 

5-Era traíra ao leite, feijão verde, farofa de cuscuz, arroz do Piancó e muito maxixe e quiabo. O velho Miguel não dispensava umas cinco malaguetas, espragatadas no fundo do prato somente para dar o gosto.

 

6-Antes da comilança,claro, todos iam à missa da paixão, celebrada pelo agoniado Frei Anastácio, um descendente de índio que fazia sermões incendiários e mandava pras profundas dos infernos quem se atrevesse a desobedecer as ordens da Santa Madre Igreja.

 

7-Depois do almoço, lá pelo meio da tarde, acontecia a procissão do Senhor Morto. A imagem gigante de Jesus morto, nos braços de Maria, era carregada por quatro compenetrados cidadãos,  escolhidos entre os mais ricos e mais mão abertas para com a igreja. De cada lado da rua, formavam-se duas filas compridas, enquanto no centro, ao lado do caixão, Dão Mandu, o sacristão, tocava a matraca, um instrumento que substituía os sinos.

 

7-Os benditos eram cantados por João Mandu, dono de uma voz parecida com a de Nelson Gonçalves, e por Dona Odívia, uma filha de Maria de bela voz, que nas horas não religiosas ganhava a vida fabricando pirulitos e saborosos alfenins, vendidos na sua casa da Rua Grande,esquina com a bodega de Adauto.

 

8 – A banda de música também acompanhava a procissão. Tocava músicas fúnebres. Manoel Marrocos, o maestro, passava a semana ensaiando umas modas penosas que, ao serem tocadas no percurso da caminhada, enchiam os corações dos fiéis de emoção. Muitos choravam copiosamente, alguns desmaiavam, e certa vez Nelson do Bilhar, cheio de cana da cabeça aos pés, puxou uma faca e ameaçou matar o Judas que fez aquilo com Jesus.

 

9 – Foi numa dessas procissões que Dr. Edson, o dentista, furou a fila e correu ao encontro de Frei Anastácio. Chegando perto, ajoelhou-se, pegou a mão do frei, beijou-a e saiu aos pulos, de volta à Bodega de Chico Pedro onde já bebia desde cedo, gritando “tô salvo, tô salvo, tô salvo!”

 

10 – Na sexta-feira santa, as raparigas do cabaré de Estrela colocavam cadeados nos chibius e não davam bolas para os pecadores que insistiam em afogar o ganso.Era pecado, dia de jejum total.Agora, quando o sábado de aleluia anunciava a ressurreição do Salvador, todas as barreiras eram derrubadas e a turma tirava o bucho da miséria.

11 – E agora lá se vão meus abraços para Robinho Ferreira, Douglas Lucena, Ricardo Ramalho,Carlos Chianca, Junior Mafuá, Felipe Silvino, Lucio Landim, Gilberto Carneiro, Nonato Bandeira, Fábio Bernardo, Aloysio Pereira, Alan e Aledson Moura, Simorion Matos, Janduy Sabino, Zé Duarte Lima, Francisco Ferreira, Marcos de Chata,Arnóbio Viana, Buba Germano, Raniery Abrantes, Bigu de Jacumã, Paulo Márcio Soares Madruga e Marcondes Antonio Marques.

 

12 - No Lastro, existe uma fabricação do famoso “queijo bola”, que segundo se comenta na região, é afrodisíaco.

Tomando conhecimento da novidade, Mundinho de Nezinho dirigiu-se à fábrica de Felinto Furtado e encomendou 20 unidades de uma vez.

-O senhor vai dar uma festa? -, perguntou o vendedor. E ao ouvir a resposta de Mundinho de que os 20 queijos eram para o seu próprio consumo, Felinto avisou:

-Assim vai endurecer...

-Oxente, homem, então embrulhe  50!

 

 




Comentários realizados

  • 14/04/2017 às 06:59

    Jarrao

    Feliz Semana Santa!

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