Gilson M. Gondim
Corria o ano de 2004. Eu tinha 45 anos. Meu pai tinha 90. Fazia seis anos que ele desenvolvia o Mal de Alzheimer, pouco a pouco. Aos 90 anos ainda reconhecia a esposa, todos os filhos e as pessoas mais próximas. Mas fazia poucos meses que tinha deixado de andar. Pensava que o pai estava vivo e morando na cidade paraibana de Areia, um dos municípios do Brejo paraibano onde meu pai se fez inicialmente como advogado e político, depois de ter se formado na Faculdade de Direito do Recife, como quase todos os políticos paraibanos importantes da sua geração. Há duas famílias Gondim na Paraíba, uma sediada em Patos, no Sertão, ligada aos gondins do Ceará (como o famoso pastor evangélico Ricardo Gondim, autor de vários livros), a outra sediada em Areia, onde meu pai pensava que o velho Horácio, havia muito falecido, estava vivendo.

Meu pai sempre conversava muito comigo quando eu o visitava, o que eu fazia praticamente todos os dias. Muitas vezes ele pensava que estávamos todos num hotel em São Paulo.

- Meu filho, se precisar de alguma coisa neste hotel, é só falar comigo.

- Tá certo, Papai.

Tinha uma fixação pela guerra do Iraque.

- Meu filho, tá morrendo muita gente no Iraque?

- Os iraquianos derrubaram mais dois helicópteros americanos. Morreram mais de vinte militares dos Estados Unidos.

- Meu filho, esses iraquianos são fogo!

- São, Papai. Eles estão defendendo o país deles.

- E tá morrendo muita gente em Patos?

Era sua mente, lá no fundo se lembrando da morte, num acidente de carro, do ex-deputado José Gaioso, que fora seu colega na Assembleia. Lá no fundo ele sabia, mas se esquecia e perguntava de novo, todo dia. E todo dia eu respondia como se fosse a primeira vez.

- Morreu José Gaioso, seu ex-colega de Assembleia, num acidente de carro perto de Patos.

- Coitado de Gaioso!

Um dia meu pai me fez uma pergunta surpreendente, que nunca fizera e nunca voltaria a fazer. Vi a lucidez misturada com o esquecimento:

- Meu filho, quais foram os cargos que eu ocupei?

Ele perguntou ao filho certo. Não que eu esteja querendo desmerecer meus irmãos e irmãs, mas sempre fui muito ligado nessas coisas de política e história. Tinha o currículo do meu pai na ponta da língua:

- Papai, você foi deputado estadual nove anos, secretário da Agricultura, Viação e Obras Públicas, vice-governador dois anos e meio, governador em exercício dois anos e meio, governador efetivo cinco anos, deputado federal dois anos e diretor do Banco do Nordeste cinco anos.

Ele arregalou os olhos:

- Mas meu filho, foram muitos cargos!

- Foram sim, Papai. E você exerceu todos muito bem. Por isso nós temos muito orgulho de você.

Vi que ele ficou emocionado. Seus olhos se encheram d‘água.

- Meu filho, muito obrigado!

Não consegui segurar as lágrimas, ali, de pé, no quarto do meu velho pai, em pé ao lado de sua cama alta de hospital. Até hoje tenho dificuldade de evitar as lágrimas quando conto esta história. Como não estou conseguindo evitá-las agora, enquanto escrevo esta mensagem. Tenho pena dos filhos de Lula e de outros políticos desonestos, que jamais poderão ter, de verdade, um momento como este.

Atenciosamente,

Gilson Marques Gondim (com muito orgulho, filho de Pedro Moreno Gondim)

P. S.: Pedro Gondim é nome de bairro (Conjunto Pedro Gondim), nome de praça (Praça Pedro Gondim) e nome de rodovia federal (Rodovia Governador Pedro Gondim). Isto só em João Pessoa, sem contar o restante do estado. Mas é, acima de tudo, o nome de um político que em 26 anos de vida pública nunca foi acusado de uma vírgula.

Mais uma historinha: Uma vez eu estava subindo a Epitácio Pessoa, de carro, com um amigo americano. Ele reparou numa placa que tinha o nome de meu pai e uma seta e perguntou:

- Is there a district named after your father? (Há um bairro com o nome de seu pai?)

- Yes!

Ele deve ter notado meu orgulho, porque respondeu com um largo sorriso.

 




Comentários realizados

  • 15/09/2017 às 15:04

    Antonio Romualdo

    Pedro Gondim, nasceu no dia 1º de maio de 1914, no Engenho Capim-Açu, município de Alagoa Nova, aonde fez todo o curso primário. (Livro: 100 anos sem medo. Centenário de Pedro Gondim. Escrito por Gonzaga Rodrigues e Hélio Zenaide).

  • 15/09/2017 às 10:40

    Ramalho

    Meu quando quando prefeito de Borborema batizou sua principal Av de Governador Pedro Gondim.Marta prefeita de Bananeiras minha esposa batizou importante AVENIDA com o mesmo nome.Sempre tive orgulho da sua amizade e só deixei de lhe trazer doce de laranja quando ele avisou que estava proibido de comer doce.Grande paraibano e brasileiro.

  • 14/09/2017 às 08:44

    Marcos Marinho

    Sempre ouvi Dona Nildinha (Nilda Gondim), a mãe de Vené e Vitalzinho, dizer que o pai era de Alagoa Nova. E agora, José?

  • 14/09/2017 às 00:19

    Daniel de Aguiar Gondim

    Novamente fatos interessantes, e infelizmente uma raça em extinção essa dos políticos honestos.

  • 13/09/2017 às 22:18

    Aldo Lopes de Araújo

    Eu era estudante de direito e estava numa parada de ônibus às sete da noite, na Av. Pedro II, Mata do Buruquinho, estava com um código debaixo do braço e uma mochila a tiracolo, ia para a UFPB, quando um automóvel parou e um senhor de idade vestido de terno branco acenou com a mão e me ofereceu carona. Era Pedro Gondim. Ele fez questão de entrar no campus e me deixou em frente à Central de Aulas. Quando desci, disse: "Minha mãe disse que o senhor foi o melhor governador da Paraíba de todos os tempos". Ele só fez rir.

  • 13/09/2017 às 11:49

    Cavalcanti

    Político honesto nos dias de hoje é uma classe em extinção

  • 13/09/2017 às 07:45

    Marconildo Gondim Levino

    Parabéns pelo pai que vc teve e principalmente por honra-lo até o último dia de sua vida!

  • 13/09/2017 às 06:58

    LEMOS

    Tião, eu pensava que Pedro Gondim era meu conterrâneo, de Alagoa Nova. Mas, conforme Gilson, Pedro era natural de Areia !!

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