Sua majestade, o Kitut.

Marcos Pires

Meu colega escritor Marcel Proust disse que ao provar um biscoito (Madeleine) o sabor o transportara à infância. Todos nós temos essa possibilidade. E não somente através dos sabores. O perfume Atkinsons me trazia muito fortemente de volta a memória de meu pai. Pena que já não exista mais.

Mas é de sabores que quero tratar com vocês, queridos leitores.

Fui criado como filho de ricos; aliás de pais muito ricos, e era comum já naquela época haver em minha casa as tais cascatas de camarões, lagostas ao thermidor que vinham do antigo Cassino da Lagoa e muitas outras iguarias. Porém nas tardes de sábados íamos à casa de minha tia Georgina, em Jaguaribe, jogar pelada no campo da Escola Industrial com meu primo Juca. Na volta tomávamos banho num tonel, que era de ferro por fora e cimentado por dentro, onde a agua que lavava o primeiro sujava mais ainda o último.  Depois minha tia servia um prato de arroz com kitut. Ah, famintos leitores, até hoje aquele cheiro do kitut em uma frigideira chiando é um desafio para meu regime.

Sempre que vou aos supermercados e padarias namoro aquelas latas quadradas que tem uma espécie de chave para abri-las lateralmente. Muita gente já cortou o dedo nessa operação.

Tudo iria muito bem nessa luta entre minhas restrições alimentares e a vontade de visitar o passado a bordo do sabor do kitut não fosse o fato de ter descoberto no último domingo, na Padaria Bonfim, umas latas (pasmem) redondas de kitut. Aí também já era demais; com certeza havia ali um recado de Deus para mim. Como poderia rejeitar o pedaço mais saboroso do meu passado, uma ordem quase divina, um avanço tecnológico tão revolucionário da embalagem, que deixara de ser quadrada depois de 50 anos?

Quando o cozinheiro Macarrão colocou em minha frente o prato com rodelas de kitut e cebolas e o forte cheiro invadiu o ambiente, alguns vizinhos imediatamente descobriram do que se tratava. Domingo passado os sanduiches da padaria “boiaram”, mas o estoque de latas de kitut acabou em meia hora. Evaporaram da prateleira as latas redondas e as quadradas.

Hoje é novamente domingo; que prato simples lembra sua infância, leitor? Que tal revisitar aquele tempo no sabor da lembrança?

Você, eu e Marcel Proust ao redor da mesma mesa de deliciosas recordações.

3 Comentário On Sua majestade, o Kitut.

  • Infância…cavaco chinês…doce de batata doce…aguardava ansiosa os domingos…e a chegada dos bons velhinhos pra me adoçar a vida…

  • Eu lembro muito da frigideira de ovos, também conhecida como “malassada”. E tb da galinha caipira ao molho pardo bem consistente preparada na casa da vovó hummm!

  • Me lembro do Pão Francês com carne de bode que vendia na feira livre e também do chapéu de couro, ureia de pau ou bolo de caco. Eitchas coisas arretadas de mais que ótimo.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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