As primeiras do dia
Incrível como o tempo passa! Luís Torres lembrava ontem à noite o nosso tempo de TV, eu, ele, Carlos Roberto e Marcos Pires. Era o Conexão Arapuan, que durou pouco mas valeu pelo que durou. Valeu mais ainda pela atitude de Marcos, que deixou o programa ao vivo em solidariedade aos amigos que foram retirados do ar pelo dono da emissora.
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A gente fazia o programa de graça, mas no dia da apresentação de uma pesquisa o dono da TV decidiu que os apresentadores seriam substituídos pela prata da casa. Pulamos fora. Marcos ficou para pular ao vivo. Foi bonito. Luís entendeu, ele também não aceitou a descortesia.
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Marcos era assim, solidário, desprendido. Lembro que na época da TV ele chegava pilotando um Astra velho. E explicava: “dinheiro eu quero pra viajar. Carro é acessório”.
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Quando eu lançava um livro, ele avisava:”Quero dez”. Presenteava os amigos e ajudava o autor, que nunca aprendeu a vender nada, muito menos livro.
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Mesmo enfrentando sérios problemas de saúde, nunca esmoreceu. Ao se afastar das colunas, pediu aos editores: “Guardem meu espaço, pois eu volto em 15 dias”.
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Estive no hospital onde ele se internou. Não o vi, ele me viu. E depois me contou: “Vi você de longe”. Deveria ter me chamado.
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Costumava lembrar que se formou em Direito para defender as causas dos pais, já sem dinheiro para pagar aos advogados.
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E virou um mito.
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Precisei dos seus préstimos em várias ocasiões. Nunca me faltou.
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Sempre me chamava de “meu enorme amigo”.
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E ele era enorme mesmo.
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Grande, imenso, sem medidas.
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E o seu “que cousa!”
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Chico Pinto, como sempre, alugou seus ouvidos para ouvir minhas queixas.
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E a nossa senha se aproximando.
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Marcos tinha 72, eu faço 75 em dezembro.
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Como bem diz Chico Florêncio, o cemitério é bem ali.
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Não tenho mais tempo para inimizades.
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Nem para intrigas.
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Tampouco para brigas por causa de políticos.
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Eles passam, nós ficamos.
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E lá na frente, eles se juntam.
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Vivem de conveniências.
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Os bestas é que não entendem isso.
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Velório de Marcos começa às oito e meia, avisa Marco Antônio Gouveia de Morais, amigo das caminhadas e da Padaria Bonfim.
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E enterro às 16 horas.
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Até um dia, meu amigo.
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Avise lá que nós vamos chegar.
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Sem vontade de ir embora, mas indo. Obrigados.
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Inté.

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