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Opinião

Almoço de abóbora

Por GILBERTO CARNEIRO

As lembranças do meu pai são recorrentes e se intensificam neste período de simbologia do Dia dos Pais.

Lembro das noites de lua cheia. Esteiras sobre a calçada. deitávamos eu, meus irmãos e primos e ficávamos acompanhando com o olhar o dedo do meu pai apontando para o céu: “lá está o Cruzeiro do Sul, as Três Marias, o Urso Maior” – empolgava-se mostrando as três constelações mais populares no céu.

Outras recordações presentes em minhas memórias são das noites em que ele pegava sua radiola portátil de pilha,abria sobre a mesa da sala e todos sentávamos para ouvir os discos de vinil do Barnabé com seus causos hilárias que nos faziam dobrar a barriga de tanto rir.

Um dos mais engraçados e preferidas do meu velho era o causo do “almoço de abóbora.”

Dois compadres, Serafim e Raimundo. Serafim cismou com Raimundo por conta de umas “criações” que invadiram sua propriedade. Tão logo tomou conhecimento Raimundo providenciou a retirada das vacas, porém Serafim permaneceu magoado. Um certo dia a esposa do compadre Raimundo resolveu convidar compadre Serafim para um almoço e acabar de vez com a querela entre os dois. Raimundo, conhecendo o rancor exacerbado do compadre Serafim lhe disse que a comida seria tipo do rico, primeiro a Entrada, depois Prato Principal, e por fim, a Sobremesa. Acomodado na mesa compadre Serafim degustou a Entrada, uma soupe de partiron, que traduzido do francês para a nossa língua nada mais é que sopa de abóbora. Em sequência veio o prato principal, uma moranga de abóbora com recheio de creme de abóbora. Por fim, a sobremesa, doce de abóbora. Serafim, impaciente, levantou-se para ir embora e olhando nos olhos de compadre Raimundo, alfinetou: “ – saiba que em minha casa abóbora sirvo para os porcos”. Mestre Raimundo, calmamente, olhou fixamente nos seus olhos e respondeu: “ – aqui em casa também”.

E meu pai nos ensinava a moral da estória, risinho sarcástico após ouvir o término do causo: “É possível liberar o peso da mágoa sem necessariamente permitir que o ofensor retorne à sua convivência”.

Os artigos de opinião são de responsabilidade de seus autores e não refletem, necessariamente, a opinião do Blog do Tião Lucena.

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