Por Rômulo Araújo Montenegro
O agronegócio brasileiro construiu, nas últimas décadas, uma das mais impressionantes trajetórias de modernização produtiva do mundo. O país transformou conhecimento científico em produtividade, incorporou mecanização, genética, biotecnologia, agricultura de precisão, sistemas de integração lavoura-pecuária-floresta e avançadas técnicas de gestão. Entretanto, uma nova fronteira tecnológica está se impondo — e ela traz consigo um alerta que ainda não recebeu a dimensão necessária: não basta possuir tecnologia; é preciso possuir pessoas capazes de utilizá-la, adaptá-la, alimentá-la com dados e transformá-la em produtividade. A inteligência artificial, a automação, os sensores, os drones, a robótica, as plataformas digitais e os sistemas de análise preditiva estão modificando a maneira de produzir dentro e fora da porteira. No campo, a IA já pode auxiliar na identificação de doenças, previsão climática, manejo de irrigação, aplicação localizada de insumos, seleção genética, gestão de máquinas, logística, comercialização e análise de riscos. Mas existe uma condição indispensável para que tudo isso funcione: capital humano qualificado.
O Brasil ainda forma poucos técnicos para a economia que está surgindo
Os dados internacionais mostram uma situação que deveria provocar reflexão. Segundo a OCDE, a participação dos estudantes brasileiros do ensino médio envolvidos em programas de formação profissional aumentou de 8% para 14% na última década. É uma evolução importante, mas ainda representa apenas cerca de um terço da média dos países da OCDE e fica abaixo de outros países latino-americanos. O Brasil avançou, portanto, mas continua formando relativamente poucos profissionais técnicos para uma economia que exige cada vez mais competências práticas, digitais e tecnológicas. Não se trata, evidentemente, de opor universidade ao ensino técnico. Precisamos de pesquisadores, engenheiros, cientistas de dados, especialistas em inteligência artificial e profissionais de elevada formação acadêmica, mas precisamos também de técnicos agrícolas capazes de interpretar mapas de produtividade, operadores de máquinas autônomas, especialistas em sensores, profissionais de manutenção de equipamentos robotizados, técnicos em agricultura de precisão, especialistas em conectividade rural e trabalhadores capazes de coletar, organizar e interpretar dados. A velocidade da transformação tecnológica, entretanto, pode ser muito maior que a velocidade de formação dos trabalhadores, e, no agronegócio, essa diferença poderá custar caro.
A inteligência artificial não elimina o trabalhador: muda o trabalhador de que precisamos
Existe uma percepção equivocada de que a inteligência artificial simplesmente substituirá pessoas. Em muitos casos, ocorrerá justamente o contrário: a IA aumentará a importância de profissionais capazes de produzir os dados que alimentam os sistemas, validar informações, interpretar resultados, corrigir erros, supervisionar máquinas, adaptar algoritmos às condições locais e transformar recomendações tecnológicas em decisões produtivas. No campo isso é ainda mais evidente. Um algoritmo pode identificar uma deficiência nutricional, mas alguém precisa interpretar a informação e decidir o que fazer; um sistema pode detectar uma doença em uma plantação, mas alguém precisa compreender o diagnóstico e escolher a intervenção adequada; um modelo pode prever produtividade, mas alguém precisa conhecer a realidade econômica, climática e operacional da propriedade. A inteligência artificial não elimina a necessidade do conhecimento humano; ela aumenta o valor do conhecimento humano. E aqui reside um dos grandes desafios brasileiros: se não formarmos trabalhadores capazes de dialogar com as novas tecnologias, poderemos ter máquinas extremamente sofisticadas sendo utilizadas por profissionais insuficientemente preparados.
O alerta que vem do Sul Global
O que acontece em algumas partes do mundo com a chamada economia digital deveria também servir de advertência. O Quênia tornou-se um importante polo de trabalhos de anotação e preparação de dados utilizados no desenvolvimento de sistemas de inteligência artificial. Empresas de tecnologia passaram a utilizar trabalhadores quenianos para tarefas como classificação de dados, moderação de conteúdo e anotação de informações. Esse trabalho humano é fundamental para o funcionamento dos sistemas de IA, mas também revela uma cadeia internacional marcada por forte assimetria de poder e remuneração. Pesquisas recentes identificam relações de dependência que, em determinados casos, reproduzem padrões semelhantes às antigas relações coloniais: países mais ricos concentram tecnologia, capital e propriedade intelectual, enquanto trabalhadores de países mais pobres realizam parte importante das tarefas necessárias à construção desses sistemas. O fenômeno não é exclusivamente africano. Trabalhadores de países como Brasil, Venezuela e Madagascar também participam de diferentes etapas dessa cadeia global de produção de dados. A pergunta que deveríamos fazer é incômoda, mas necessária: queremos participar da economia da inteligência artificial como produtores de tecnologia ou apenas como fornecedores de mão de obra barata para a tecnologia produzida por outros?
O risco de o Brasil reproduzir esse padrão no agronegócio
É aqui que o debate sobre IA se encontra com o futuro do agronegócio. O Brasil possui uma extraordinária capacidade de produção agropecuária, mas ainda apresenta limitações importantes na formação de profissionais técnicos, ao mesmo tempo em que suas cadeias produtivas estão se tornando cada vez mais dependentes de tecnologia. O perigo é construirmos uma agricultura altamente sofisticada tecnologicamente, mas dependente de conhecimento produzido no exterior e de profissionais formados fora do país. Nesse cenário, o Brasil poderia tornar-se um grande usuário de plataformas, máquinas, softwares, algoritmos e equipamentos desenvolvidos por terceiros, enquanto concentraria internamente as etapas de menor valor agregado. Seria uma espécie de “commoditização tecnológica”: produziríamos soja, milho, carnes, açúcar, celulose e outros produtos em grande escala, mas compraríamos de outros países os equipamentos, softwares, componentes, algoritmos e conhecimentos necessários para produzir. É justamente esse tipo de dependência que precisamos evitar.
O exemplo dos call centers e a armadilha da mão de obra barata
O Nordeste oferece outro exemplo interessante. A região tornou-se importante destino para operações de call centers e BPO, atividades capazes de gerar milhares de empregos e que são importantes para muitas famílias, mas frequentemente associadas a funções padronizadas e relativamente baixa remuneração. O problema não está nesses empregos, que cumprem uma importante função econômica e social, mas no risco de uma economia passar a depender predominantemente da capacidade de oferecer mão de obra barata, em vez de desenvolver competências capazes de gerar produtos e serviços de maior valor agregado. Estudos sobre o mercado de trabalho brasileiro apontam, inclusive, uma forte desconexão entre a qualificação dos trabalhadores e os requisitos das vagas existentes, especialmente em regiões onde a oferta de profissionais preparados é mais limitada. O ponto central é que desenvolvimento não consiste apenas em criar empregos; consiste em criar empregos cada vez melhores, e empregos melhores exigem trabalhadores mais preparados.
O agronegócio é uma cadeia tecnológica
Às vezes ainda pensamos no campo como se tecnologia estivesse restrita às máquinas, mas essa visão ficou definitivamente ultrapassada. A cadeia de suprimentos do agronegócio começa muito antes de a semente chegar à terra e termina muito depois da colheita. Envolve genética, fertilizantes, defensivos, bioinsumos, máquinas, sensores, softwares, logística, armazenamento, crédito, seguros, comercialização e processamento industrial. Em todos esses segmentos, a tecnologia será cada vez mais determinante. O próprio Brasil ainda apresenta elevada dependência externa em determinados insumos estratégicos: mais de 80% dos fertilizantes utilizados no país são importados, segundo o Ministério da Agricultura. Isso demonstra que o desafio não é apenas produzir mais dentro da porteira; precisamos dominar tecnologias antes, dentro e depois da porteira, ampliando nossa capacidade de desenvolver insumos, equipamentos, sistemas, processos industriais e soluções digitais.
Da commodity ao conhecimento
Há uma relação direta entre qualificação profissional e agregação de valor. Países que não conseguem desenvolver tecnologia tendem a permanecer concentrados nas etapas menos sofisticadas das cadeias globais de produção. Isso vale para a agricultura, para a mineração e também para a economia digital. O Brasil possui recursos minerais estratégicos fundamentais para tecnologias modernas, incluindo terras raras e minerais críticos utilizados em equipamentos eletrônicos, baterias, motores, sistemas de geração de energia e diversas aplicações de alta tecnologia. O desafio, portanto, não é simplesmente retirar o minério do subsolo e exportá-lo, mas transformá-lo em conhecimento, indústria, tecnologia e produtos de maior valor agregado. A mesma lógica vale para o agronegócio: não basta exportar a commodity; precisamos dominar cada vez mais as tecnologias que permitem produzi-la melhor, processá-la, transformá-la e comercializá-la.
O Nordeste pode ser parte da solução
Há, entretanto, uma oportunidade extraordinária diante de nós. O Nordeste possui algumas das melhores condições do mundo para geração de energia solar e eólica, justamente em um momento em que a expansão da inteligência artificial está aumentando a demanda por energia e ampliando a necessidade de grandes centros de processamento de dados. Isso abre uma possibilidade estratégica para a região: deixar de ser apenas consumidora de tecnologia e transformar-se também em território de produção tecnológica, abrigando data centers, centros de processamento de dados, empresas de tecnologia, laboratórios de agricultura digital, hubs de inovação, centros de pesquisa e empresas dedicadas ao desenvolvimento de soluções para o semiárido e para a agricultura tropical. Entretanto, existe uma condição fundamental: energia sem conhecimento não produz desenvolvimento tecnológico. A abundância energética do Nordeste poderá ser um enorme diferencial competitivo, mas o verdadeiro fator limitante será a capacidade de formar pessoas capazes de transformar essa energia em conhecimento, processamento de dados, inovação e novos negócios.
O campo precisará de uma nova geração de profissionais
O profissional do agronegócio do futuro precisará compreender simultaneamente produção, tecnologia e dados. O técnico agrícola poderá trabalhar com sensores, drones, inteligência artificial e máquinas autônomas; o operador de máquinas precisará compreender sistemas digitais; o agrônomo deverá saber interpretar grandes volumes de dados; o veterinário utilizará ferramentas de diagnóstico baseadas em inteligência artificial; o gestor rural precisará compreender sistemas de previsão climática, mercados, riscos e finanças; e o trabalhador da agroindústria terá de lidar com automação, robótica e controle de qualidade digital. Todos eles, além disso, precisarão alimentar continuamente os sistemas com informações confiáveis. A IA não aprende sozinha sobre a realidade específica de uma fazenda brasileira. Ela precisa de dados. Dados sobre solo, clima, produtividade, variedades, doenças, pragas, manejo, máquinas, custos, comportamento animal e inúmeros outros elementos precisam ser coletados por pessoas que conheçam o campo. É justamente por isso que a formação técnica deixa de ser uma questão meramente educacional e passa a ser uma questão de competitividade nacional.
O verdadeiro risco não é a IA. É ficar para trás
É importante deixar claro que o problema não é a inteligência artificial. O problema seria o Brasil entrar na era da IA sem ter preparado sua população para utilizá-la. Não precisamos temer a tecnologia; precisamos temer a incapacidade de acompanhá-la. A experiência venezuelana oferece uma advertência de outra natureza. O país experimentou uma das maiores crises econômicas e migratórias da história recente da América Latina, provocando uma enorme saída de sua população, inclusive de profissionais qualificados. As sanções internacionais também fazem parte dessa história e produziram impactos econômicos relevantes, mas não explicam sozinhas a crise, que já vinha se agravando anteriormente. A lição para o Brasil, portanto, não é afirmar que caminhamos necessariamente para uma “nova Venezuela”, mas justamente o contrário: devemos fazer tudo para que isso jamais aconteça. E uma das formas de evitar esse destino é preservar e ampliar nossa capacidade de gerar conhecimento, formar profissionais, produzir tecnologia e criar oportunidades econômicas.
Um novo pacto para o agro
O agronegócio brasileiro precisa incorporar à sua agenda estratégica uma questão que será tão importante quanto crédito, infraestrutura, seguro rural, logística e inovação: qualificação profissional. Governos federal e estaduais, sistema S, universidades, institutos federais, empresas, cooperativas, produtores rurais e entidades representativas precisam construir uma grande agenda nacional de formação para o Agro 5.0, contemplando agricultura de precisão, inteligência artificial, ciência de dados, robótica, automação, sensores e Internet das Coisas, drones, geoprocessamento, biotecnologia, bioinsumos, manutenção de máquinas inteligentes, conectividade rural, cibersegurança, gestão de dados, energia renovável, processamento agroindustrial e logística inteligente. Não se trata de preparar apenas cientistas ou especialistas altamente graduados. Precisamos preparar milhões de trabalhadores capazes de conviver produtivamente com a tecnologia, porque a competitividade do agronegócio dependerá cada vez menos apenas da disponibilidade de recursos naturais e cada vez mais da capacidade humana de transformar esses recursos em conhecimento, produtividade e valor.
O futuro será decidido pela capacidade de formar pessoas
O Brasil tem terra, água em muitas regiões, biodiversidade, energia renovável, uma extraordinária agricultura tropical, instituições de pesquisa reconhecidas internacionalmente e produtores capazes de incorporar inovação. O que precisamos garantir é que teremos também gente preparada para transformar tudo isso em conhecimento, produtividade e valor agregado. O futuro do agronegócio brasileiro não será decidido apenas pela quantidade de hectares plantados, pela produtividade por hectare ou pelo volume exportado. Será decidido também pela capacidade de transformar dados em conhecimento, conhecimento em tecnologia e tecnologia em produtividade. O Brasil não pode aceitar que sua vocação para o agronegócio termine na produção de commodities enquanto outros países controlam os algoritmos, os equipamentos, os insumos e o conhecimento que tornam essa produção possível. A inteligência artificial abre uma nova fronteira e, diante dela, talvez a pergunta mais importante para o agro brasileiro não seja “que tecnologia teremos?”, mas “quem estará preparado para utilizá-la?”
Essa é a verdadeira disputa pelo futuro do agronegócio brasileiro. E ela começa na sala de aula, passa pelo ensino técnico, chega às propriedades rurais, alcança a agroindústria e termina na capacidade de o Brasil transformar conhecimento em desenvolvimento. O país que formar os profissionais capazes de operar, interpretar e desenvolver as tecnologias do campo terá condições de liderar o agronegócio do futuro. O país que não os formar correrá o risco de continuar sendo apenas um grande produtor de commodities em uma economia mundial cada vez mais comandada por dados, inteligência e conhecimento.
Rômulo Araújo Montenegro
Professor Universitário | Consultor Empresarial | Produtor Rural
Ex-Secretário de Estado da Agricultura e Pecuária da Paraíba
Ex-Presidente do CONSEAGRI – Conselho Nacional dos Secretários de Agricultura
Diretor Regional da Academia Latino-Americana do Agronegócio – ALAGRO




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