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A República caiu na piscina — e a água ficou turva.

10 de agosto de 2026

Brasília sempre foi pródiga em lugares para conversas políticas. Gabinetes, restaurantes, residências oficiais, jatinhos e fazendas já serviram de cenário para encontros entre alguns dos homens mais poderosos do país.
Agora, a República descobriu a piscina.
Uma fotografia encontrada pela Polícia Federal no celular do senador Weverton Rocha e revelada em reportagem da revista Piauí, com repercussão em outros veículos, mostra um grupo de políticos reunidos dentro e nas proximidades da piscina do Rancho Tomaz, propriedade do advogado Willer Tomaz, em Planaltina, no Distrito Federal.
Na cena aparecem nomes de peso da política nacional, entre eles Arthur Lira, Alexandre Ramagem, Juscelino Filho, Elmar Nascimento, Paulo Azi e Weverton Rocha. Outras reportagens apontaram também a presença dos senadores Ângelo Coronel e Efraim Filho, candidato ao Governo do Estado da Paraíba pelo PL.
É praticamente uma bancada parlamentar em trajes de banho.
E, convenhamos, piscina tem certas vantagens para uma conversa reservada: não há microfone, ata, assessor anotando, transmissão ao vivo nem taquígrafo. E celular, se cair na água, ainda corre o risco de perder a memória.
Mas o molho dessa história não está apenas na fotografia.
O anfitrião, advogado Willer Tomaz, entrou no radar da Operação Sem Desconto, investigação da Polícia Federal sobre o esquema de descontos associativos indevidos envolvendo aposentados e pensionistas do INSS. A PF apura relações financeiras entre empresas ligadas ao advogado e pessoas próximas ao senador Weverton Rocha. Os envolvidos e suas defesas negam irregularidades.
É preciso fazer a ressalva necessária: estar numa piscina não é crime. Fotografar-se ao lado de políticos também não. E uma imagem, por mais curiosa ou politicamente constrangedora que seja, não constitui prova de participação em qualquer ilícito.
Feita a ressalva, voltemos à piscina.
Segundo as informações divulgadas, o encontro teria sido articulado por integrantes de um grupo de WhatsApp batizado de “Grupo Seleto”.
O nome é uma preciosidade.
Enquanto aposentados e pensionistas tentavam entender descontos que apareciam em seus benefícios, uma parcela bastante influente da República frequentava ambientes realmente seletos.
Não se sabe o que foi discutido dentro daquela piscina. E seria irresponsável inventar.
Podiam falar de futebol, eleições, Brasília, churrasco, sucessão no Congresso ou simplesmente da temperatura da água.
A piscina não gravou a conversa. Até hoje, ninguém conseguiu intimá-la para depor.
Mas a política também vive de símbolos. E poucos são tão poderosos quanto uma fotografia de parlamentares reunidos de molho, longe dos ambientes formais onde a atividade pública deveria, preferencialmente, ser exercida sob alguma luz.
O episódio não autoriza condenações. Autoriza perguntas.
E democracia saudável não deve ter medo delas.
Talvez seja essa a grande ironia da fotografia: havia muita gente importante dentro da água, mas nenhuma transparência suficiente para sabermos o que se passava por ali.
Em Brasília, parece que surgiu uma nova modalidade de articulação política.
É a República de Sunga.
E, pelo visto, quando determinados assuntos ficam profundos demais, alguns integrantes do poder preferem conversar justamente na parte rasa.

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