O LEGADO DA TERRA E DO TEMPO

Por GILBERTO CARNEIRO
O SILÊNCIO do Dia de Finados nos convida a olhar para trás, não com a dor da perda, mas com a reverência de quem herdou um império construído sob o sol implacável do sertão baiano. Hoje, a saudade tem nome, sobrenome e a força de um gigante: Mister Adolfo.
Falar de meu pai é descrever um homem que viveu uma vida inteira com a grandiosidade dos fortes. Sob o calor escaldante da roça, enquanto o suor corria pelo rosto e as mãos calejadas lidavam com a terra dura, olhava para os filhos e apontava para o futuro. Foi naquele cenário de trabalho pesado que cravou na memória de cada um a sua máxima mais valiosa: “— Filho, pobre só tem um jeito de vencer na vida: estudando.”
Aquelas palavras não eram apenas um conselho; eram um pacto de amor e sacrifício. Mister Adolfo repetia sempre que não tivera a oportunidade de frequentar a escola, mas transformou a própria falta de estudo em combustível para que a história dos seus nove filhos fosse diferente. Prometeu, ali mesmo, sob o sol quente do sertão, que daria um jeito. E deu.
Junto com sua companheira de uma vida inteira — a rainha Anatália, com quem dividiu quase 70 anos de caminhada —moveu montanhas. O agricultor que dobrava a coluna na enxada fez com que os nove filhos andassem de cabeça erguida.
Hoje, ver todos vivos e bem encaminhados na vida é a prova de que a profecia de Mister Adolfo se cumpriu. A roça que cultivou não deu apenas alimento; deu doutores, profissionais, cidadãos honrados, cada um com seus fardos, é verdade, mas vivos, bem vivos.
Mister Adolfo partiu aos 94 anos, tendo vivido quase um século de histórias, colheitas e vitórias. Embora o sertão tenha ficado mais silencioso sem a sua presença, o eco da sua voz continua vivo. Está na força que minha mãe ainda carrega aos 93 anos e no sucesso de cada filho que venceu na vida porque um dia, sob o sol do sertão, um pai agricultor decidiu que o estudo seria a herança mais rica de sua linhagem.
Neste Dia de Finados, a primogênita Creuza, teimosa como é, contrariou os datistas e veio no sentido inverso, o do nascimento, da ESTRELA que reluz vida, amor, fraternidade e solidariedade. Portanto, partida e nascimento se conectam nesta data, numa homenagem ao nascimento do sustentáculo dos irmãos e na referência a mister Adolfo, homenagem que não é feita de lágrimas de tristeza, mas de um profundo e eterno obrigado. A semente que plantou brotou e transformou o destino de toda uma geração.
Esteja em PAZ, mister ADOLFO!
Parabéns mana CREUZA!

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