Por GILBERTO CARNEIRO
O VENTO trazia o som de sinos de vento de algum lugar distante, as flores brancas dos Ipês faziam contraste com o intenso azul do céu sem nuvens, a luz forte do sol refletia nas lápides. A exuberância daquele dia de outono aparentemente contrastava com o pesar que sentia o meu amigo Dom Luciano que, sentado em frente à lápide de Lady Bernadeth, observava como os pássaros teimavam em entoar seus cantos como se estivessem querendo chamar sua atenção e arrancá-lo da sua imersão.
Embora os pássaros proporcionassem um espetáculo à parte recusava-se a desviar a atenção e concentrava seus pensamentos nas memórias que lhe vinham a mente no dia em que se completou um ano da partida da sua inesquecível mãe. Não sabia ao certo porque optara em ficar sozinho, em estar ali mergulhado na solitude que os passarinhos pareciam não aprovar. No entanto, embora mergulhado no mais completo silêncio a escolha consciente de estar só lhe proporcionava uma conexão espiritual capaz de aos poucos afastar a tristeza substituindo-a por uma sensação de paz profunda.
Em meio a selfies, redes sociais, viagens, casamentos luxuosos e vidas aparentemente perfeitas, tem sido cada vez mais raro encontrar um espaço acolhedor para sofrer. É como se qualquer emoção negativa precisasse ser escondida por uma falsa felicidade. Tristeza virou fraqueza, ingratidão, e até mesmo doença.
Quando um ser humano perde alguém, muitas vezes é incentivado a voltar rapidamente para as suas
atividades de rotina, a pensar em outros assuntos e a não expressar cotidianamente suas emoções. É como se lhes fossem dados alguns dias de trégua para poder sofrer logo que a perda ocorre, mas depois sua tristeza vai se tornando algo desagradável aos demais, vista como anormal, como um obstáculo a ser superado e até mesmo curado.
Dom Luciano não se preocupa com esse ponto de inflexão. Estar ali absorto em memórias saudáveis faz um bem incomensurável ao seu coração e em meio ao silêncio envolvido pelo crepúsculo esboça um sorriso ao relembrar a frase que era comum nos lábios da sua mãe ao acordar e antes do recolhimento noturno: “filho, tenha paciência comigo”.
Seus irmãos e irmãs possuem a mesma compreensão, afinal Lady Bernadeth viveu longos cem anos muito bem vividos ao lado dos seus filhos e netos. Seu esposo partiu antes, assim como uma da suas filhas, porém Lady Bernadeth sempre teve a compreensão do reencontro inevitável com eles em um lugar repleto de paz e harmonia.
A vida é assim, feita de escolhas. Dom Luciano não casou e isso não lhe trouxe nenhum desconforto. Um dos seus maiores regozijos é ter convivido com sua inesquecível mãe, Lady Bernadeth, por um século de vida. Um dia irá reencontrá-la, mas não agora, não agora.
Ontem, por algumas daquelas circunstâncias do destino, eu sonhei com Lady Bernadeth. No sonho pediu que eu, na condição de amigo próximo do seu filho, lhe aquietasse o coração e o transmitisse uma mensagem: “está bem e em paz e quer que o filho constitua uma família”.




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