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Domingueiras do Tião

21 de junho de 2026

Valente e teimoso

Meu avô materno, Antônio Cazuzão, era primo próximo da mulher do coronel José Pereira, dona Alexandrina. Mas pertencia a banda pobre. Agricultor, sem leitura, morava no mato. Casou duas vezes.

Da primeira esposa não lembro nem o nome. A outra, minha vó Olinta, conheci de perto, mas a perdi quando tinha apenas nove anos.

Dos filhos de meu avô com minha avó Olinta lembro bem, pois com todos convivi.

Eram eles Emília, Severino, José, Nequinho e Jovelina.

Tio Severino era avarento. Sentava à mesa de minha casa com uma xícara de café à frente e tirava o pão do bolso, aos pedaços, para não o compartilhar com os sobrinhos.

Tio Zé fazia doces, cocadas de umbu, quebra-queixo e até bolos. Vendia tudo na feira. Não chegou a casar, amigou-se com uma morena a quem chamávamos de Preta e adotou uma menina, Emília.

Tio Nequinho era nosso xodó. Nunca casou. Era padeiro e adorava um carteado. Enquanto viveu morou com minha avó e com minha Tia Jove, que também preferiu ficar solteira. Ele fazia piscica, uma torta à base de manteiga a qual somente os padeiros tinham acesso. E os sobrinhos dos padeiros também.

Tia Jove foi uma espécie de segunda mãe para todos nós. Tinha a casa dela, mas passava o tempo todo na nossa casa, cuidando da gente e dando pitaco na administração do lar. Devota de Nossa Senhora, era Filha de Maria. E adorava arriscar a sorte no jogo do bicho.

Mas voltemos ao Vovô Antônio.

Era ignorante e teimoso. Pelo que minha mãe contava, quando emburrava com uma coisa, nada o demovia.

Certa vez matou um porco e levou a carne para vender no açougue de Princesa.

Como não tinha licença da Prefeitura, foi intimado pelo fiscal a desocupar a tarimba, pois outro vendedor teria direito ao espaço.

Ele disse que não desocupava. E fez mais: não saía e não vendia.

Quando algum freguês desavisado se aproximava e perguntava quanto era o quilo do porco, Vovô Antônio Cazuzão respondia:

– Né pra vende nam.

A Polícia foi chamada, em vão. O velho continuou onde estava, sem sair e sem vender.

– Daqui não saio, daqui ninguém me tira.

O jeito foi chamar Dona Xandu, a prima ilustre.

E lá vai dona Xandu de Zé Pereira para o açougue salvar o pescoço do primo.

– Antônio, deixe de besteira. Vamos embora, leve a carne, eu compro toda.

E só então Antônio Cazuzão desocupou a tarimba do açougue.

Mas ainda teve o atrevimento do olhar para o soldado e insultar:

– Viu aí?

SALVE A RAINHA!

O São João obra milagres, os políticos que o digam, abrem dos peitos e gastam à vontade com festas para o povo. Bananeiras é palco de festas mil, os políticos se esparramam, tem “São João do Cordeirinho”, tem “Choro da Cabritinha”, meu amigo Maguila se salva, faz um São João na Gruta só para a família e amigos do peito escolhidos a dedo, tem até casos de desobediência, como o de um ex-prefeito de Solânea que resolveu peitar os donos do “Melhor São João das Nossas Vidas”, enfiando lá dentro uma garrafa de Matuta, quando a ordem é para só consumir Rainha.

Nesse ponto eu dou razão aos promotores. A única cachaça fabricada em Bananeiras é a Rainha. E, diga-se, ao lado de Serra Limpa, é a melhor da região, quiçá do Brasil. Falo porque sou cachaceiro, gosto da branquinha, houve um tempo em que bebia de copo cheio, agora bebo com moderação, mas a Rainha, apesar de forte, é a única que não me dá ressaca e não me deixa cagando mole.

O desembargador Cananéia, o também desembargador Miguel Levino, entre outros consagrados homens públicos, iam sempre de Rainha com laranja. Prova de bom gosto.

Se quer homenagear cachaça de Areia, vá à festa em Areia, em Bananeiras é um insulto a uma tradicional e especial cachaça conhecida aqui e em alhures. Lembro que estava em Copacabana, num hotel chiquérrimo e encontrei na prateleira, ao lado de cachaças mineiras, a nossa Rainha soberana, original da Paraíba, fabricada em Bananeiras. E agora estão fazendo uma Rainha de Imburana que tem gosto de uísque, um chiqué, levei um litro pra Bibiu meu irmão e ele, além de beber, está pedindo bis.

Este ano não estarei nos festejos, vou para o São Pedro, que não é comemorado em Bananeiras, fazem festa pra ele em Belém, terra dos meus amigos Laplace, Pedro, Paulo e Assis Freire e dos considerados donos da Churrascaria Alagamar, aquela que serve uma carne de sol de filé mignon muito ótima demais.

De logo aviso: não me confundam com quem elogia comida de restaurante para comer no gratuítes. Pago minhas contas e quando me sento ao lado de alguém poderoso, faço questão de dividir. Aprendi com Ricardo Coutinho.

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