opinião

O ABRAÇO

13 de julho de 2026

Por Chico Pinto Neto
  *Para Ianara
No início da década de setenta tomei a decisão mais certa, próspera e saudável  da minha vida.
Iniciativa esta, que me permitiu estudar, trabalhar, constituir família e adquirir novas e perenes amizades.
Saí da cidade de Sousa, no Alto Sertão da Paraiba, aos 20 anos de idade, em busca de novos horizontes. No entanto,  algo me atrapalhava.
Nessa época, já carregava nas entranhas um vício que quase me leva, em definitivo, a bancarrota se no meio desta tormenta, não tivesse tomado à decisão de deixá-lo para sempre fora da minha rotina.
Decisão esta, que neste próximo dia 27 de setembro, festejaremos com  sobriedade 34 anos de vida nova.
Digo festejaremos porque ao meu lado se encontram meus familiares que  agradecem ao nosso Deus por esta conquista que me devolveu plenitude de ser dono do meu caminhar com harmonia, saúde e responsabilidade.
Fui alcolatra e ainda o sou, mas sem me permitir ingerir, durante todo esse tempo, sequer uma gota etílica.
Por essa “Graça Divina” carrego dentro do meu ser uma felicidade imensa, sem    qualque resquício de nostalgia.
Digo apenas que o meu sofrimento, após as farras homéricas, que me esvaiam de ressacas e de dívidas descontroladas são coisas do passado.
Porém, nada contra aos que gostam  das suas “brincadeiras” em torno da sua cerveja, seu conhaque e da espirituosa cachaçinha. Vão em frente com moderação e sempre convictos de que  existe o momento de reflexão.
Ou seja, se considera que à vida é melhor ser vivida regada ao álcool, distante dele ou com moderação, isso fica ao critério de cada um, pois, é bom mensurar que a vida é bela com ou sem os efeitos desordenados da embriaguez.
Se se sente prejudicado, o caminho é evitar o primeiro gole. Se tá de boa siga  em frente com a proteção de São João da Barra e, evidentemente, daqueles outros santos que protejam os passos caracteristos dos efeitos etílicos.
Oxe, falei em demasia do alcoolismo, e ia me esquecendo do famoso abraço que fui obrigado a dar em um poste situado na Duque de Caxias, em frente ao Cine Plaza,  em plena passagem de ano.
Explico: esse  afetuoso amplexo ocorreu na passagem da década de 70 para os anos 80. Tinha passado a tarde com amigos bebericando no Pietro’s Bar, da Lagoa, quando observo que os ponteiros do relógio já se aproximavam das 23 horas.
Como morava em uma republiqueta próxima ao bar,  pedi a “saideira” e ao terminar me dirigi ao meu cafofo para trocar de roupas e ir romper os festejos na casa dos meus queridos tios e padrinhos Quintino e Otávio Henrique, que residiam, naquela época, na Rua Manoel Deodato, na Torre.
Ao sair limpinho, de roupa nova e perfumado qual foi a minha surpresa? Simplesmente não havia mais transportes naquele horário.
Os ônibus já haviam sido recolhidos e os taxistas “batido” em retirada para comemorarem a passagem de Ano Novo juntos aos seus.
Ruas desertas, sem viva a’lma, transporte muito menos e sem outra opção a não ser ir a pé até a Torre, porém, o tempo estava em meu desfavor.
Ao ir em busca novamente do Pietro’s  na tentativa de encontrar alguém para me conduzir ao meu destino, antes programado, parei de supetão na rua deserta ao ouvir a badalada do sino da Catedral de Nossa Senhora das Neves, anunciando a alvorada do Novo Ano.
Com imensurável tristeza não tive outra escolha a não ser me abraçar com este poste da foto, que me faz ainda hoje,  recordar com saudoso arrependimento e melancolia dos meus tempos de antão.
É assim que à vida prega emoções inevitáveis na caminhada dos boêmios. Umas alegres e outras nem tanto.
*Esse fato me veio à memória ao passar diante do meu amigo poste, neste sábado, em companhia da minha filha Ianara, quando  retornavamos do SabadimBom, em busca do nosso carro em direcão a nossa casa.
Desta vez sóbrio e sem nenhum atropelo. E, assim, continuo grato pelos bons momentos etílicos, porém, nem sempre saudáveis e nem tampouco agradáveis.

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