opinião

DE LAGOA DE DENTRO À SORBONNE

8 de fevereiro de 2026

RAMALHO LEITE

Quando o menino Carlinhos conseguiu trocar um “cavalo de pau” por um velocípede, desapegando-se de um presente de Papai Noel, revelava sua vocação e indicava um futuro voltado para a economia e a conivência com assuntos financeiros. Começou menor-aprendiz no Banco do Brasil e desse passo inicial, foi sendo forjada a liderança que se alicerçara na escola de primeiro grau e crescera através do exemplo seguido e absorvido nos diversos postos por onde passou, até ser reconhecido um nome nacional que atende pelo nome de batismo na Igreja de São Sebastião da Paróquia de Lagoa de Dentro, pequena cidade do interior da Paraíba- Carlos Antônio Vieira Fernandes.
Depois de ser ouvido em auditórios de todo o Brasil e demonstrar a experiência que acumulou desde que fez concurso para ingressar nos quadros da Caixa Econômica Federal como simples escriturário, Carlos Vieira se volta para o passado e resolve reviver sua infância e adolescência; o presente em suas carências e sucessos da vida pessoal e profissional; e o futuro que envolve esse nosso país repleto de contradições. Dos fatos fez notícia e das notícias fez crônicas reunindo tudo em um livro sob o titulo: FRAGMENTOS DO COTIDIANO EM CRONICAS. E me concede a honra de apresentá-lo a seus leitores. Tentarei desincumbir-me da missão e, diria, com emoção, pois identifiquei nos seus passos iniciais semelhanças com as minhas origens, embora não tenha alcançado o “píncaro” como ele relata, ao registrar a felicidade rara de chegar aos bancos da Sorbonne, onde se tornou Mestre em Finanças.
Conhecia do autor alguns textos técnicos, onde tenta convencer com dados e estatísticas a correta execução de projetos a seu cargo, com a autoridade de quem começou como monitor, e, já no segundo grau, passou a lecionar Introdução à Economia. Deparei-me, porém, com uma surpresa agradável. Uma narrativa sumamente humana, sentimental, diria até, romântica, de fatos do cotidiano que, testemunhados por ele, são traduzidos como pensamento filosófico e lições de vida. A experiência servindo de exemplo.
E como ele aborda assuntos importantes, de forma simples e casual. A presença de Luiz Gonzaga, o Rei do Baião, na história da nossa musica popular, vem montada em um burro mulo, onde o menino Carlinhos, voltando do sitio Lagoa do Meio, na garupa de “Mimoso” e cabeça encostada nas costas do pai, ouvia por onde passava, nos rádios das casas de taipa, “Luar do Sertão” sob os acordes da sanfona e na voz inconfundível de Gonzagão. “Essa lembrança, suave e eterna, nunca deixou a minha mente”, diz.
Como também não esqueceu o “atrevimento” de lecionar economia ainda aprendiz, coragem que vinha do ensinamento materno: “somente pela educação vocês encontrarão o caminho para o bem estar e dignidade”, falava aos filhos. E confessa: “a vida era dura. A mesa de casa nem sempre era farta- mas não faltava”. Havia, porém, uma certeza, uma confiança na palavra carinhosa da mãe: “Não se preocupe, não faltará dinheiro para os livros”. E não faltou, pois o autor conclui que “o conhecimento é o único bem que, quanto mais acumulado, mais nos liberta”.
A libertação do menino Carlinhos não se fez no caminho do sitio Lagoa do Meio para a cidade de Lagoa de Dentro, mas vencendo os 115 km do Caminho de Santiago, sonho acalentado de há muito e realizado como se fora um processo de renascimento. Era a resposta de quem já percorrera uma longa estrada de difícil acesso, transpondo obstáculos e vencendo desafios. Nessa corrida para obter a liderança, aprendeu e ensina: “liderar, entendi mais tarde, não era mandar, mas ouvir, organizar e servir”.
E foi assim que o filho de seu Chiquinho e dona Eulália saiu lá do interior da Paraíba e ganhou o mundo. Entrou em uma das instituições mais respeitáveis deste País através do concurso público e depois de experimentar todas as posições possíveis, ocupa a sua presidência. Para chegar aonde chegou, tinha consciência de que “havia um senso de mérito muito claro, quem se esforçava crescia, e eu queria crescer”, pois também aprendera que o “sucesso não se constrói com pressa. Ele é uma construção diária, feita com paciência, humildade e trabalho duro”.
Quando o Imperador Pedro II instituiu a Caixa Econômica Federal, ”para facultar aos cidadãos pobres o deposito das suas economias, servindo de incentivo à poupança e proteção à velhice” jamais pensou que um dos seus possíveis depositantes chegasse à sua direção. No máximo, seria registrado que a escravizada Joana, confiaria à instituição os seus trocados, para adiante comprar sua alforria. À época era pouco valorizada a palavra credibilidade, mas para o seu atual presidente e autor deste livro, a palavra tem um peso e “é algo que se constrói em silencio, dia após dia, com pequenas atitudes”.
Pois essa é a história de um menino que se fez homem, aprendendo e ensinando que “a vida é como uma língua, com suas próprias regras de conjugação”. Carlos Vieira conjugou todos os tempos e modos. Vai até o infinito!

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