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Porque hoje é sábado

24 de janeiro de 2026

1 – A feira livre no interior é um dia de festa, pelo menos era no meu tempo de matuto. Acordava-se cedo para pegar o melhor, depois das 10 só restava o sarrabuio, a caminhada começava pela verdura, o setor das frutas ficava adiante ao lado das barracas de bolos, cocadas e quebra-queixo.

2 – João Fernandes comandava os vendedores de cereais. “Bote uma cuia de farinha, seu João”, pedia dona Emília, nossa mãe. “Também quero dois litros de feijão de corda, lá em casa a turma gosta de comer com chambari de porco”, emendava ela.

3 – Vicente Pedro e Antônio Luzia vendiam rapaduras fabricada nos dois engenhos que possuiam na Serra do Gavião. As rapaduras de Antônio Luzia eram mais alvas, as de Vicente eram escuras, da cor do bagaço, do caldo, da garapa que a gente bebia dormida, enterrada na areia de dois dias, para embebedar.

4 – Tio Zé levava a fama de melhor fabricante de quebra-queixo. Os matutos diziam que não havia outro que chegasse perto dele. Mandavam abrir o pão aguado e enchiam o miolo com o doce de Tio Zé, comiam fazendo zuada e depois ajudavam na descida com um copo de água tirada do pote.

5 – Na esquina de Antônio Teodósio ficava o açougue. Ainda fica, deve ser um dos poucos prédios de Princesa que  não foram derrubados por pertencer a Prefeitura e ser invendável. Dentro do açougue o burburinho de gente e de açougueiros. Logo na entrada a carne de gado, no meio os bodes, na rabeira os porcos.

6 – A carne de gado era vendida verde e salgada. A salgada, também chamada de sol, tinha dois destinos. A da tarimba podia ser adquirida por todos. Era a carne dura, de costela, de pescoço. A boa, mole, de primeira, só quem tinha acesso era a freguesia, os chamados ricos, xodó dos marchantes.

7 – Augusto Preto e seu filho Cassimiro vendiam carne de porco. Porco gordo, toicim de quatro dedos, uma delícia. O matuto comprava e levava o quilo pendurado num barbante de agave. Tinha deles que se entertia nas budegas do Cancão e voltava pra casa bêbado e com a carne imprestável para o consumo.

8 – Num fim de feira Augusto Preto jogava sal no que sobrou e foi abordado por Espedito Cazuzão, já triscado de tanta cachaça e liso. “Seu Augusto, me venda um quilo de poico que sábado eu pago!” Sem tirar o olho da carne e do sal, Augusto Preto resmungou: “Já tô saigando pra não perder…”

9 – A turma do sem dinheiro, da qual eu fazia parte, conseguia generosos pedaços para o tira-gosto de logo mais, entregava a Preta de Luizinho para que ela torrasse no óleo e, em seguida, comia com farinha e cachaça. Cabo Brito cansou de pagar meiotas para nós.

10 – Além do Bar de Luizinho, frequentava-se o Bar de Arlindo, no começo do mercado e três casas adiante ficava o Bar do Peixe do Dona Maria do Ó, cuja especialidade era a traíra ou a pescada frita no óleo de soja.

11 – O peixe de Maria do Ó ficava crocante, ela fritava na farinha, o consumidor comia com espinha e tudo. Zé Góes enfiava na boca a traíra espinhenta e cuspia as espinhas sem se engasgar. Ele e Zé Lima eram os maiores comedores de traíras do lugar.

12 – Mas o que é bom se acaba, deixo o resto da feira pra depois porque chegou a hora dos abraços sabadais para Sérgio Botelho, Zé Euflávio Horácio, Ulisses Barbosa, Zé Vieira, Júlio Santana, Teócrito Leal, Gonzaga Rodrigues, Chico Pinto, Renato Luiz, Walter de Sousa, Zé Pinheiro, Leila Oliveira, Nonato Guedes, Zé Duarte Lima, Aldo Lopes, Fernando Valaque, Josemar Pontes, Robson Nóbrega, Sílvio Osias e Sonia Yost.

13 – O promotor Agnelo Amorim participava de um júri que julgava um réu acusado de matar um desafeto que se recusara a pagar uma dívida.

Ao começar a sua acusação, olhou fixamente para os jurados, e, apontando para o criminoso, sentenciou:

  • Senhores jurados, esse indivíduo é um exacerbado do Direito Cambial. Em vez de cobrar a promissória, executou o devedor.

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