Nos tempos de músico

 

Eu fui músico de banda de música quando tocar em banda era o fino da moda. O prefeito Gonzaga Bento reativou a banda que o seu sogro, coronel Zé Pereira, havia fundado, e contratou o cabo/maestro/tocador de trompa Muriçoca para organizá-la. Depois dele assumiu o cargo o velho Ozael, que foi substituído por Petronilo Malaquias, um pernambucano de Carnaíba que sabia tudo de música. Foi com ele que comecei a me enfronhar nas partituras.

Comecei tocando requinta. Passei para a clarineta, fiz um estágio no soprano e terminei a vida artística tocando sax tenor. A banda viveu o tamanho do mandato de Gonzaga. Quando se elegeu o substituto, que era do partido contrário, o próprio Gonzaga aposentou os instrumentos, pertencentes a família Pereira, e grande parte dos músicos ficou desempregada.

Eu sobrevivi porque já havia comprado um soprano ao tabelião João Barros, com o qual tocava no conjunto de Zé de Minininha, ao lado de Chico de Mourão (trombone), Zé de Bezeca (tenor), Ernani de Ulisses (piston), Mitonho (bateria), Bicudo Massaroca (pandeiro), Nêgo Heronildo (surdo), Goiaba de Manoel de Fefê (maracas) e Edmilson Lucena (cantor).

Essa de Edmilson cantor merece um parêntesis. Ele cantava num baile em Princesa quando alguém pediu uma música em inglês. Naquele tempo, era um luxo dançar sob os acordes de uma música cantada em inglês, mesmo que o matuto nada entendesse do idioma.

Edmilson, que não sabia coisíssima nenhuma de inglês, começou a cantar enrolando a língua. E estava tudo dando certo até que o Dr. Antonio Nominando Diniz, intelectual e poliglota, parou de dançar, aproximou-se do palco, botou a mão ao redor do ouvido em forma de concha e pôs-se a ouvir a música, para tentar entender o que a letra dizia. Foi quando olhou para Edmilson e o nosso cantor, de cima do palco, piscou o olho de um jeito confidencial e cúmplice. Nominando fez um ar de riso e voltou a dançar suave e feliz, ao som daquele acorde maravilhoso de música estrangeira.

No tempo da banda, percorríamos as cidades vizinhas tocando em festas, procissões e enterros. Numa festa de padroeira realizada em Água Branca, o vigário, Frei Alberto Leão, nos colocou numa casa de ponta de rua e mandou que nos servissem feijão puro com toucinho de porco. Heronildo e Benedito de Rufina, revoltados, foram até uma bodega e compraram doze rapaduras para substituirem a carne que faltou. A turma comeu a metade das rapaduras e a outra foi transformada em pedras para uma guerra entre músicos que terminou com um galo na testa do velho Manoel Orestino, tocador de pratos.

No conjunto de Zé de Mininha toquei cerca de cinco anos. Zé era uma graça. Passava a metade do ano comendo feijão com sardinha, mas quando arranjava um contrato bom, ficava com a metade do dinheiro, que era gasto na compra de passarinhos. E nos hotéis onde se hospedava como maestro só aceitava comer no café da manhã bolacha creme creacker com leite quente.

O meu tenor eu o vendi em 1975 para pagar a passagem do ônibus que me trouxe a João Pessoa.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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