CADERNETA DE FIADO
Seu Diolindo escrevia os fiados num caderno velho, ensebado, as folhas quase se desmanchando. Os pagamentos feitos eram imediatamente registrados e as anotações de débito apagadas. Seu Diolindo usava uma borracha igualmente velha, surrada, que carregava pregada no lápis grafite que com o tempo encurtava de tamanho.
Existiam os caloteiros, eles sempre existiram, mas estes eram identificados e alijados. A freguesia só comportava quem pagava direitinho. E não se cobrava juros.
A prática não era só na bodega de Diolindo. Os demais bodegueiros vendiam fiado utilizando o mesmo sistema. Valdeci, Zé Alvelino, Chico de Martílio, Zé Domingos, Luizinho de Calu, Chico Sobreira, Pedro Sobreira, Manoel Duarte, João de Rita, Toinho Fernandes e Chico Caitano.
As lojas de tecidos de Valdemar, Belo Maia, Hermes, Zé Pires, Severino Almeida, Elizeu e Baldi, as miudezas dos irmãos França, as missangas de Cícero Missangeiro, as padarias de Rafael e Tião Basílio; nos dias de feira apelava-se para a caderneta de João Fernandes que vendia feijão e farinha, também se anotava os fiados de carne comprada a Veri, a Vavá de Fofa, a Pi de Fila,a Augusto Preto, a Fuloro Girome, a Peba e a Rafael Alves. Até cachaça se bebia no fiado, e nesse caso os calotes eram os mais frequentes e os registros, se ainda existirem, estão aí nos cadernos de Arlindo, de Bartô, de Mirô Arruda, de Zé Galego, de Joca Fernandes, de Maria do Ó, de Pedro Caboclo e de Chico Pedro.
Não existia SPC, Serasa ou cartório de protesto. A punição ao velhaco seria sua exclusão do caderno dos fiados, alguns bodegueiros mais atrevidos anotavam seus nomes em cartazes e os expunha na porta do estabelecimento comercial para avisar aos colegas de comércio.
O mais interessante é que ninguem falia, quebrava, fechava as portas, mudava de ramo.
Eu fui o único que fechei a barraquinha de lona que armei na saída do Jatobá para vender cachaça, cocada e pão aos matutos em dia de feira. A turma do Gavião comprou fiado, não pagou e meu capital de giro só aguentou duas rodadas.




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