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Domingueiras do Tião

22 de fevereiro de 2026

CADERNETA DE FIADO

Seu Diolindo escrevia os fiados num caderno velho, ensebado, as folhas quase se desmanchando. Os pagamentos feitos eram imediatamente registrados e as anotações de débito apagadas. Seu Diolindo usava uma borracha igualmente velha, surrada, que carregava pregada no lápis grafite que com o tempo encurtava de tamanho.

Existiam os caloteiros, eles sempre existiram, mas estes eram identificados e alijados. A freguesia só comportava quem pagava direitinho. E não se cobrava juros.

A prática não era só na bodega de Diolindo. Os demais bodegueiros vendiam fiado utilizando o mesmo sistema. Valdeci, Zé Alvelino, Chico de Martílio, Zé Domingos, Luizinho de Calu, Chico Sobreira, Pedro Sobreira, Manoel Duarte, João de Rita, Toinho Fernandes e Chico Caitano.

As lojas de tecidos de Valdemar, Belo Maia, Hermes, Zé Pires, Severino Almeida, Elizeu e Baldi, as miudezas dos irmãos França, as missangas de Cícero Missangeiro, as padarias de Rafael e Tião Basílio; nos dias de feira apelava-se para a caderneta de João Fernandes que vendia feijão e farinha, também se anotava os fiados de carne comprada a Veri, a Vavá de Fofa, a Pi de Fila,a Augusto Preto, a Fuloro Girome, a Peba e a Rafael Alves. Até cachaça se bebia no fiado, e nesse caso os calotes eram os mais frequentes e os registros, se ainda existirem, estão aí nos cadernos de Arlindo, de Bartô, de Mirô Arruda, de Zé Galego, de Joca Fernandes, de Maria do Ó, de Pedro Caboclo e de Chico Pedro.

Não existia SPC, Serasa ou cartório de protesto. A punição ao velhaco seria sua exclusão do caderno dos fiados, alguns bodegueiros mais atrevidos anotavam seus nomes em cartazes e os expunha na porta do estabelecimento comercial para avisar aos colegas de comércio.

O mais interessante é que ninguem falia, quebrava, fechava as portas, mudava de ramo.

Eu fui o único que fechei a barraquinha de lona que armei na saída do Jatobá para vender cachaça, cocada e pão aos matutos em dia de feira. A turma do Gavião comprou fiado, não pagou e meu capital de giro só aguentou duas rodadas.

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2 Comentários

  • Reply Domingueiras do Tião | Blog do Tião Lucena - Blog Do Tião Lucena 22 de fevereiro de 2026 at 05:40

    […] Link da fonte aqui! […]

  • Reply Antonio Belarmino Neto 23 de fevereiro de 2026 at 00:12

    Antonio Belarmino Neto
    Linda essa sua crônica no blog, Tião Lucena.
    Ao lê-la, voltei cinquenta anos da minha vida. Conheci todos esses comerciantes; não cheguei a comprar fiado, mas conheço bem todas essas histórias.

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