
Miguel Lucena
Nesses tempos de rompimentos políticos em Brasília, veio-me à memória a velha sabedoria sertaneja do vice-prefeito Gominho, figura lendária de Princesa, na Paraíba. Foi em 1976, quando ele resolveu romper com o prefeito Batinho depois de uma eleição vitoriosa.
Para tirar Gominho do MDB e levá-lo para a Arena, o grupo de Batinho prometera mundos e fundos: metade do mandato de prefeito, cargos para os aliados, cama de mola para os pobres e até melhoria no feijão do povo. Gominho acreditou. O povo também.
Mas o tempo passou ligeiro feito cavalo desembestado em estrada de barro. Nada de posse, nada de cargos, nada de cama de mola. O povo continuou dormindo em cama de pau duro e comendo o “feijão furado” das promessas políticas.
Já perto de outra campanha, Gominho subiu num caixote na Lagoa da Fazenda, seu reduto eleitoral, ajeitou a alpercata de rabicho, pigarreou e largou a sentença que atravessou décadas:
— “Me prometeram metade do mandato e não deram; prometeram cargos pros meus aliados e não deram; prometeram cama de mola pros pobres e deixaram o povo no pau duro. Meu povo, digo a vocês com toda convicção: mais vale uma rapadura salgada do que duas promessas doces!”
O povo aplaudiu de pé. Porque no Sertão — e também em Brasília — promessa doce demais costuma dar mais azia do que sustança.




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