A perna de Renato

 

Meu amigo Renato tem uma perna de madeira. É uma prótese antiga, já vencida nas eras, que range quando ele anda. De tão velha, diminuiu de tamanho e Renato anda torto.

Renato precisa de uma perna nova, ele sabe. E tem como comprá-la. Mas não larga da velha por pura amizade. A perna velha de Renato já andou com ele por lugares inesquecíveis, os dois viveram emoções e aventuras a perder de vistas e por isso Renato insiste em envelhecer junto com a perna velha.

Os dois, Renato e a perna, moram no conjunto Funcionários II. Ele tem um bar perto da igreja, frequentado por gente boa e gente mais ou menos, como o promotor Aluizio, o garçom Duda, o defensor público Antonio Ivan Pedrosa, o agente penitenciário Demontieux Feitosa (também chamado de Tetéu) e, vez por outra, o escriba que vos fala. Exímio jogador de dominó, Renato joga com os clientes apostando cerveja. Como ganha todas, enche a cara junto com eles e ainda recebe o dinheiro.

Mas eu falava da perna de Renato. Trata-se de uma perna roliça, meio cor de vela, tipo aquela “o finado era menor”, que, como já dito, viveu com o dono memoráveis histórias. Dentre elas, esta:

Sairam Renato, Duda, Aluizio, finado Goró e Gilvan de Efraim para um puteiro que funcionava nas cercanias do conjunto Costa Silva, saída para Gramame. Ali chegando, beberam, comeram e se engraçaram das meninas que se ofereciam. Renato levou a dele para o quarto, ajustou o preço e, de preço ajustado, começou a se despir. Tirou a camisa, a calça, a cueca e por último a perna. A moça já ficou meio espantada, vendo aquele homem arrancando pedaço dele mesmo. Mas aguentou o tranco. A profissão exige determinados sacrifícios.

Renato beijou a moça, abraçou, beliscou, fungou, mas nada de consumar o ato. Uma hora depois nessa pisada, ela,a moça, demonstrou impaciência. E Renato explicou: -É que acabei de me lembrar que estou liso”. Foi um reboliço. O menor nome que ele levou foi de xexeiro. E não era para menos. Metido a brabo, puxou os cabelos da quenga e ela, aos gritos, chamou o gerente, que chamou a polícia. Chegou a policia, os amigos se meteram no meio, os policiais exigiram a prisão do xexeiro, Aluizio disse que ele iria, mas não no camburão e sim na moto e assim foram, Renato se vestindo, Duda segurando a perna que ele não teve tempo de colocar no lugar, a polícia na frente, Renato na garupa de uma moto atrás, a perna logo em seguida nas mãos de Duda no lastro da camioneta e as putas fechando a procissão, para servirem de testemunha.

Na Central de Polícia, as explicações de sempre foram prestadas, o xêxo devidamente pago, o delegado, em respeito ao doutor Aluizio, fechou o inquérito e quando todos iam saindo, Renato reclamou: -Cadê minha perna?” Foi aí que soube a notícia ruim. O escrivão, com cara de poucos amigos, informou: -Vai ficar anexada aos autos.”

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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