A última entrevista de Cícero Bezerra, o famoso Bandoleiro do Norte (final)

Publicamos a segunda parte da entrevista com Cícero Bezerra, o famoso “Bandoleiro do Norte”, comandante das tropas de Zé Pereira em 30´. Só lembrando que essa entrevista foi concedida por ele ao Tião que vos fala e ao saudoso Paulo Mariano em 18 de novembro de 1980, quando Princesa comemorava mais um aniversário de emancipação política. Cícero Bezerra se encontrava na sua casa no Alto dos Bezerra e tinha, à época, 86 anos.

Todavia, tais acontecimentos, antes de entristecer o velho bandoleiro, fazem parte do seu mundo de lembranças e ele os rememora, sempre, com um sorriso nos lábios. E as festas que eram promovidas, regadas a cachaça e muito forró, quando retornavam de alguma batalha, fazem Seu Cícero, ainda hoje, afirmar, alto e bom som, que “naquele tempo é que havia animação”.

Cada cabra de José Pereira ganhava 10 mil réis por semana. Cícero, por ser chefe, recebia 30. Os 1.200 homens que formavam o pequeno exército do coronel José Pereira Lima recebiam armamentos, munições e víveres da Cruz Vermelha”.

O CORONEL

Sobre o coronel José Pereira, Cícero afirmou que ele “em nobreza e bondade não tinha igual”.Segundo ele, o coronel não permitia desrespeito às famílias e tinha sempre um conselho a dar, quando os grupos saíam da sede. “Não comam de quem tem pouco. Respeitem as Coletorias Federais (ele era aliado do Governo Federal), Correios e padres; mas onde brigarem e forem atacados, queimem tudo para não ficar nada para a Polícia”.

Na opinião de Cícero Bezerra, a luta mais renhida de 30 ocorreu em Alagoa Nova, hoje Manaíra. Conta ele que “morreram 20 soldados, fora os feridos. Dos nossos só quatro foram mortos, isso mesmo porque facilitaram.”

O coronel José Pereira, prossegue, não deu um tiro. Ele ficava em Princesa, orientando e dando coragem à gente”. Mas, mesmo tendo afirmado que foi em Manaíra onde o combate mais sangrento aconteceu, Seu Cícero caiu, mais tarde, em contradição, quando disse que em Tavares “morreram mais de 300, fora os que foram queimados nos caminhões”.

O SOLDADO

O único crime pelo qual Cícero Bezerra foi acusado e obrigado a passar quatro meses escondido nas caatingas, depois da revolução, foi o do soldado Mário de Carvalho. Aconteceu em seu sítio. Ele estava entrincheirado com alguns homens, a espera da polícia, quando divisou, na margem do açude, um homem caminhando lentamente. “Aí nós descobrimos que se tratava de um soldado à paisana. Joaquim Rodrigues não contou conversa: mandou bala, mas errou. Aí eu atirei com um rifle 30 e, quando pensava que tinha errado, vi ele sair como bêbado, até cair do outro lado. Admito que posso ter matado uns 200 ou 300. Mas o danado foi o soldado do rifle 30”, enfatizou sorrindo.

A FUGA

Quando João Pessoa morreu, a revolução terminou e nós começamos a ser perseguidos”, prossegue Seu Cícero Bezerra. “Passei quatro meses escondido e só voltei depois que os Nominando, que eram rivais do coronel, mandaram me chamar”. A família de Nominando Diniz, segundo ele, refugiou-se na cidade pernambucana de Triunfo, durante a revolução, e retornou quando as forças federais interviram no município.

Em 1930, lembra o ex-bandoleiro, apesar de não ter padre em Princesa, o comércio era bom. Na vila de Cachoeira de Minas “o povo moía e fazia farinha”. Passada a refrega, contudo, o município começou a decair, as fábricas de Patos de Irerê fecharam, os grandes comerciantes faliram e os que abandonaram seus sítios e fazendas foram obrigados a lutar meses a fio para recuperar os bens, destruídos pela Polícia.

BRINCALHÃO E VAIDOSO

Aos 86 anos, Seu Cícero Bezerra ainda ouve, fala e caminha com segurança e lucidez. Gosta de brincar e, quando alguém tenta lembrar alguma situação em que esteve em perigo, imediatamente desconversa. Por exemplo, um de seus netos pediu para ele contar o episódio em que foi prender um padre e voltou do meio do caminho, quando soube que o delegado de Nova Olinda era muito valente. Ele desconversou e disse que não estava no comando da tropa naquela ocasião.

-O senhor tem o corpo fechado?, quis saber um dos entrevistadores. “Tenho sim. A prova é que numa recebi um arranhão”. “Mas Lampião também tinha o corpo fechado e morreu”, insistiu, e ele, matreiramente, justificou: “Lampião morreu porque se juntou com mulher ruim e ficou tonto”. Se referia a Maria Bonita.

Já passava das 17 horas e a entrevista terminou. Antes, ele mostrou velhas fotografias, dois bornais que utilizou em 30, ainda cheios de bala e o famoso rifle 30, que utilizou para matar o soldado. Na varanda mesmo, os visitantes se despediram, avisando que a reportagem sairia dia 18, quando do aniversário de Princesa. Seu Cícero manifestou apenas uma preocupação: “Não esqueça de botar meu retrato”.

Deixe uma resposta:

Seu endereço de e-mail não será mostrado.

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.

Sliding Sidebar

Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

Social Profiles

teste