Ainda bem que acordei

Acabei de escrever um artigo de lauda e meia na queixo duro do Correio. Aquele papel amarelado, com picas e riscos, chegou às mãos de Letinho depois de muito trabalho para preenche-lo, pois ele ora era papel, ora era plástico e quando era plástico, mal segurava as letras.

Não há computador na redação. Até nisso Alexandre Jubert economiza. Volta ao passado para gastar o papel velho que sobrou da última fornada e obriga todo mundo a dedilhar as queixos duros vendidas pela Oliveti e pela Remington, a maioria delas com as teclas enganchando de tão antigas, sem contar as que estão sem fitas ou com fitas encardidas, sem tinta.

Zé de Valaque reclama do seu posto. Humberto Lira mal consegue informar as últimas mortes do dia. Só a zoada de kubi Pinheiro retratando o que de mais novo acontece no soçaite alegra um pouco o ambiente: “Madame Jeruza trocou de chapa depois de 40 anos, está com um sorriso linduuuu”, avisa Kubi, enquanto prepara a nota para a coluna de Abelardinho.

Eu nem sei sobre o que estou escrevendo. Falo da velha máquina portátil que eu pensara aposentada no porta mala do guarda roupa lá de casa e aviso a Toinho Hilberto que se da próxima vez continuar desse jeito, não escrevo mais.

-E quem vai sentir falta? -, gargalha Hilton Gouveia sentado ao meu lado,  remexendo seu maço de anotações para falar da mulher que virou assombração em Cabedelo.

Ainda bem que acordei e vim para o computador.

Foi só um pesadelo.

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Muito louvável a iniciativa do deputado Pedro Cunha Lima, com seu projeto que restringe o uso de carro oficial por autoridades.

Talvez assim ele não gaste de novo quase cinco mil reais com locação de veículos, como fez no mês de outubro último.

Ressalte-se: Não gastou do próprio bolso, usou a verba de gabinete para cobrir a despesa.

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O senador Cássio, noticia Gutemberg Cardoso, quer unir Zé Maranhão e Romero numa chapa só. Resta saber que vai ficar na cabeça e quem ficará no cangote.

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E se Zé aceita isso.

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De uma coisa o senador não tem dúvida e disse isso sábado à Rádio Correio do Vale: “A decisão de Luciano Cartaxo é irreversível”.

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E como hoje é domingo, vamos parar por aqui.

2 Comentário On Ainda bem que acordei

  • Eu até hoje guardo duas maquinas Olivetti de mais de 20 anos atrás. Uma delas é da chamada “última geração” daquela época:
    pequena, elétrica, letrinhas iguais à do computador:. Uma beleza!

  • Reproduzindo uma parte da entrevista publicada na revista Valor com o cientista politico Wanderley Guilherme dos Santos, feita pela jornalista
    Maria Cristina Fernandes, com o titulo de ” UM PAÍS NAS MÃOS DO ACASO” …………………………………………………………………………………………………………

    Valor: Mas queria voltar à comparação entre os papéis de Lula e de Fernando Henrique, como as duas reservas de liderança política no país. Como o senhor viu a articulação de Fernando Henrique para viabilizar Luciano Huck?

    Wanderley Guilherme: Fernando Henrique está tentando desesperadamente livrar a direita de uma derrota porque sabe que [Geraldo] Alckmin, [José] Serra, João [Doria], qualquer um perde a eleição. Talvez tenha a percepção, ou o temor, de que neste caso o grupo que vai perder, tal como já violou a Constituição antes, viole de novo. Peça para violar. É a tradição da UDN. Então, eu até entendo o Fernando Henrique. Ele está com muita clareza. Tem mais de lucidez desesperada do que “gagazice”. Não acho que esteja gagá. Vão perder. Então está fazendo um esforço monumental para ser competitivo. Teme que, do jeito que está a vulgaridade, essa tropa toda vá para rua querendo militar

    Valor: Esse desespero justifica um nome a qualquer custo?

    Wanderley Guilherme: Que outra coisa ele pode fazer senão tentar? Ele nem mesmo detém o partido. Só tem o nome público. A máquina é de Alckmin, que vai perder.

    Valor: Mas, se o PSDB e a base governista conseguirem manter a coesão, não levam?

    Wanderley Guilherme: Não sei se vão, mas podem se juntar. Só que, em condições normais, não ganham a eleição. Só ganharão se Lula oferecê-la numa bandeja. Se ele, por si próprio, se liquidar como um grande eleitor. E aí, sabe-se lá. Porque aí vai valer a tal da segmentação eleitoral: uma parte vai para o Ciro, uma parte vai para não sei quem, uma parte para não sei quem… Aí, a direita se une e vem qualquer um.

    Valor: Mas a esquerda teria que se unir desde o primeiro turno?

    Wanderley Guilherme: É difícil tirar o Ciro, o Boulos, ou o PT. O primeiro turno vai ser do jeito que sempre foi. Um bando de candidatos que concorrem para fazer bancada. Mas a esquerda só perde se for idiota

    Valor: E o que é ser um competidor idiota?

    Wanderley Guilherme: É lançar um candidato único agora. Quem quer que surja com essa força vai ser decepado pela Lava-Jato, como aconteceu com [ex-ministro] Jacques Wagner. O PT, como partido mais importante da esquerda, deveria conversar sobre eleição e definir candidatura mais para frente quando o calendário eleitoral já estiver assegurado. Esta é a campanha. Garantir a legitimidade da eleição. Ela é legal. Está de acordo com o cronograma, com os ditames da Constituição. Só se o eleitorado for coagido e violarem as urnas é que se pode falar em fraude. Mas isso é depois da eleição.

    Valor: No que a intervenção militar no Rio pode causar impactos na sucessão?

    Wanderley Guilherme: Tanto se ficar até o fim quanto sair, é ruim. Porque a intervenção, até agora, não aconteceu. Não vai dar certo porque para isso tem que ocupar mesmo. E onde é que iríamos parar com essa maluquice de mandato coletivo? Como é que o governo toma decisões dessa magnitudade futilmente? A gente vai ficando com a pele grossa e não se dá conta da magnitude da barbaridade que está o país.

    Valor: O senhor conhece precedentes para esta intervenção?

    Wanderley Guilherme: Existem duas hipóteses para a intervenção: Estado de defesa ou segurança e questões de segurança nacional. E aí, não existe intervenção parcial. A intervenção é no poder. Os milicos “de pijama” estão dizendo que tem que intervir em tudo. E eles têm razão, no sentido de que é isso que a lei diz.

    Valor: O senhor fala da centralidade da eleição, mas o Brasil não corre o risco de eleger apenas mais um refém de um Congresso carcomido?

    Wanderley Guilherme: A campanha para presidente tem que deixar claro que o eleito tem que pedir autorização ao Congresso para fazer um plebiscito revogatório de uma série de medidas. No período de graça o governo consegue tirar isso do Congresso. Não é revogar tudo. Tem que começar a discutir uma pauta desde já.

    Valor: Mas o Congresso a ser eleito será mais ou menos aquele que votou essas medidas a serem revogadas. Isso não afronta o mandato desses parlamentares?

    Wanderley Guilherme: E daí? Foi o mesmo Congresso que votou as medidas do Lula e da Dilma [Rousseff]. Mudam e votam. Já votaram as leis de quilombola e agora estão tirando. Votaram as leis de proteção à Amazônia que agora estão tirando. Vota e tira, mas isso só acontece no período de graça.

    Valor: Mas seja quem for eleito, será presidente por uma margem muito pequena. E, se perde, já começaria derrotado…

    Wanderley Guilherme: Aí acabou. Mas eu não vejo outro meio. Qualquer candidato com expectativa de ser positivo para as classes mais vulneráveis tem que imaginar como fazer isso. Senão, para que vai se eleger? Só se está iludido que vai fazer maioria. Porque não vai.

    Valor: Essa defesa de um plebiscito contraria uma posição histórica sua contra democracia direta…

    Wanderley Guilherme: Uma coisa é submeter um programa no início do governo, outra é chamar o povo o tempo inteiro para votar. Isso sou contra. Mas o plebiscito e o referendo são recursos constitucionais legítimos em situações excepcionais. E a situação é excepcional.

    Valor: Mas para que submeter o programa de governo a um plebiscito se o candidato acabou de ser eleito?

    Wanderley Guilherme: O eleitor elege lado, não o programa. Não é para dar carta branca. Tem que ser específico. São coisas que deveriam estar sendo pensadas junto com o problema fiscal do país. Não é apenas “vou acabar com as maldades de Temer”. É realmente fazer alguma coisa que possa sustentar os quatro anos de negociação com o Congresso que vamos ter.

    Valor: O presidente eleito propõe um plebiscito desses e a bolsa despenca para 20 mil pontos…

    Wanderley Guilherme: Quinze dias depois, sobe. Imagina se esse pessoal vai deixar de ganhar dinheiro? Cai quando ficam com medo de perder dinheiro, mas depois volta. Bolsa e [Jair] Bolsonaro não entram na minha equação porque não têm nenhum efeito de longo prazo.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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