Conheça Fernando, o pai do presidente da OAB que Jair Bolsonaro garante saber como foi morto

Durante mais de 40 anos, os familiares de Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira secaram as canelas atrás de descobrir o seu paradeiro. A anistia internacional, a igreja, as entidades ligadas aos direitos humanos, todos juntos procuraram por ele e nada. O Exército, as forças repressoras de 64 esconderam todas as informações. Fernando, que combatia o golpe militar de 64, sumira durante um carnaval no Rio de Janeiro, deixando a mulher e uma criança recém nascida. Fora “sumido” pelos militares de 64 e até hoje seu corpo se encontra em lugar incerto e não sabido.

Mas existe alguém que sabia de tudo e não dizia. Esse alguém é o presidente Jair Bolsonaro, capitão reformado do Exércio Brasileiro e apaixonado defensor do golpe militar que mergulhou o Brasil nas trevas da ditadura por mais de 20 anos .

Chateado com as críticas do atual presidente da Ordem dos Advogados do Brasil, Felipe Santa Cruz, coincidentemente filho do Fernando desaparecido, o presidente anunciou à imprensa que se o presidente da OAB quiser saber como o pai dele morreu, ele, Jair Bolsonaro, dirá.

Se Bolsonaro sabia e ficou calado, no mínimo foi cumplice de um crime. E se afirma que o desaparecido foi morto, que diga quem matou, porque matou e onde escondeu o corpo.

E sofra as consequência de sua, até agora, omissão.

Conheça quem foi Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira:

Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira (Olinda20 de fevereiro de 1949 — Rio de Janeiro, desaparecido em 23 de março de 1974) foi um estudante e militante do movimento estudantil brasileiro, símbolo da resistência contra o Regime Militar brasileiro. De acordo com um de seu irmãos, João Artur, Fernando não era ligado à luta armada, mas era membro da Ação Popular Marxista-Lenista (AP). Quando Fernando desapareceu, seu filho Felipe Santa Cruz (desde 2019 presidente da Ordem dos Advogados do Brasil) tinha apenas dois anos de idade.

Seu caso é investigado pela Comissão da Verdade, que apura mortes e desaparecimentos no regime militar brasileiro.

Marcelo Santa Cruz, outro irmão de Fernando e vereador de Olinda, fala sobre a época da prisão do irmão à Comissão da Verdade: “A gente considerava que tinha sido o DOI-Codi. Calcula-se que Fernando foi morto em função de ser o contato de Jair

Fernando Augusto de Santa Cruz Oliveira, nome completo de batismo do estudante, nasceu em 20 de fevereiro de 1949, em Olinda, Pernambuco. Ele foi o quinto filho do casal Lincoln de Santa Cruz Oliveira, médico-sanitarista, e de Elzita Santos.

Fernando Santa Cruz como é conhecido, já participava do movimento estudantil secundarista. No ano de 1967, foi preso durante uma passeata em Recife contra o acordo MEC-Usaid, que moldaria o ensino brasileiro segundo os moldes norte-americanos prejudicando a qualidade do ensino nacional. Preso por uma semana no Juizado de Menores de Pernambuco, junto com o seu amigo Ramirez Maranhão do Valle, Fernando Santa Cruz experimentou a dura realidade dos menores que são marginalizados pela sociedade.

Após sair da prisão, passou a atuar mais na política, voltando sua luta para o Movimento Estudantil. Dessa forma, Fernando Santa Cruz um dos articuladores do movimento estudantil em Pernambuco, sendo um dos reestruturadores da Associação Recifense dos Estudantes Secundaristas (ARES). Nesta época, foi assinado o AI-5, de forma que Fernando Santa Cruz viu-se pressionado a não mais atuar nas lutas políticas de Recife e se mudar da capital pernambucana. Nesta época, já estava casado com Ana Lúcia Valença, e foi com ele morar no Rio de Janeiro.

No Rio, aliou o trabalho profissional na CHISAM, órgão da administração pública, subordinado ao Ministério do Interior, com o trabalho político. Foi aprovado no vestibular para o curso de Direito da Universidade Federal Fluminense e, na UFF, recomeçou sua luta política inicialmente por meio do diretório acadêmico do curso. Mais tarde, por meio do Diretório Central dos Estudantes. Em 1972, nasce o seu filho Felipe, nome dado em homenagem ao companheiro Felipe, como era conhecido Humberto Câmara Neto, desaparecido após ser preso e torturado pela polícia carioca. No mesmo ano Fernando é admitido por concurso público na Companhia de Águas e Energia Elétrica do Estado de São Paulo, e por isso muda-se para capital paulista.

Em 1974, Fernando, que adotava o nome Carlos, junto com a sua mulher, decidem passar o carnaval na cidade do Rio de Janeiro. Nesta passagem pelo Rio, Fernando decide visitar amigos que faziam parte da resistência política contra a ditadura militar, pertencentes à Ação Popular Marxista-Leninista (APML), que, em decorrência das atividades contrárias a ordem vigente, eram obrigados a viver na clandestinidade. No dia 23 de fevereiro, Fernando saiu da casa do seu irmão Marcelo para o encontro com os amigos às 16 horas daquele sábado de carnaval. A volta estava marcada para às 18:00. Entretanto, Fernando Santa Cruz nunca mais foi visto. Quando o apartamento de um de seus amigos, Eduardo Collier, foi inspecionado por agentes de segurança do governo, presumiu-se que Fernando havia sido levado pelos agentes do DOI-CODI-RJ. Sem se identificarem ao porteiro do prédio, reviraram todo o apartamento e apreenderam uma grande quantidade de livros de conteúdo ideológico, imaginando-se que se tratava de uma ação repressiva de natureza política, porém, não se sabe ao certo o que de fato ocorreu, dado que sem identificação, tanto poderiam ser agentes do governo quanto militantes disfarçados em missão dde cunho secreto.

De imediato, começaram as buscas, ao mesmo tempo, teve início a busca junto às autoridades militares por parte da família e dos advogados. A falta de informações não colaborou para o intento. A procura se estendeu pelos estados do Rio de Janeiro e São Paulo, nos I e II Exércitos, respectivamente. A Igreja, através do Cardeal D. Paulo Evaristo Arns, jurista Sobral Pinto, escritor Alceu Amoroso Lima, tentaram investigar, sem, contudo, obterem resultados concretos.

Igualmente inúteis foram os habeas-corpus impetrados pelos advogados junto à Justiça Militar. Nem a presença de militares insuspeitos como os marechais Juarez Távora e Cordeiro de Farias, muito menos o envolvimento direto de entidades internacionais como a Organização dos Estados Americanos e a Anistia Internacional, conseguiu surtir efeito junto as autoridades brasileiras.

Igualmente inúteis foram os habeas-corpus impetrados pelos advogados junto à Justiça Militar. A presença de militares insuspeitos como os marechais Juarez Távora e Cordeiro de Farias, e o envolvimento de entidades internacionais como a Organização dos Estados Americanos e a Anistia Internacional, também não conseguiu surtir efeito junto as autoridades brasileiras.

Um rrelatório divulgado pelo Ministério da Marinha informou que Fernando Santa Cruz estava desaparecido desde 23 de fevereiro daquele ano. Um ano mais tarde, a mãe de Fernando, dona Elzita, enviou uma carta[1] ao Ministério da Justiça pedindo informações sobre o filho, mas nunca teve resposta.

Após o seu desaparecimento, Fernando Santa Cruz tornou-se um ícone da luta e da resistência nos movimentos sociais e principalmente no movimento estudantil de modo que posteriormente, o Diretório Central dos Estudantes da UFF e o Diretório Acadêmico de Direito da Unicap foram batizados com o seu nome.

A ficha de Fernando encontrada em 1992 no DOPS/SP, contudo, revela que ele foi efetivamente preso pelas forças da repressão. Assim está registrado nesse documento oficial: “nascido em 1948, casado, funcionário público, estudante de Direito,, preso no RJ em 23/03/1974”. Em outro relatório, do Ministério da Marinha, consta que Fernando “foi preso no RJ em 23/02/1974, sendo dado como desaparecido a partir de então”.

Em entrevista à revista Isto É, de 24 de março de 2004, o sargento Marival Chaves do Canto afirmou ter trabalhado como analista de informações no DOI-CODI/SP e que acompanhou as principais operações comandadas pelo Doutor César, o coronel José Brant Teixeira, e pelo Doutor Paulo, o coronel Paulo Malhães. Marival declarou que esses dois oficiais […] foram responsáveis pelo planejamento e execução de uma mega-operação em inúmeros pontos do País para liquidar, a partir de 1973, os militantes das várias tendências da Ação Popular (AP) […]. Segundo o ex-agente, entre os mortos estão Fernando Santa Cruz Oliveira, Paulo Stuart Wright, Eduardo Collier Filho e Honestino Guimarães […].

Em 16 de julho de 2008, a revista Carta Capital (nº 504) divulgou matéria sobre a localização do Capitão Homero, Dr. Homero ou Homero César Machado, coronel do Exército reformado, apontado como um dos principais torturadores da “equipe C” do DOI-CODI/SP, na época da ditadura. Ele foi denunciado em pelo menos sete processos no Superior Tribunal Militar, segundo o Projeto Brasil: Nunca Mais. O mesmo oficial é o responsável pelas informações falsas de que Fernando e Eduardo não estavam presos no DOI-CODI/SP. 

Em 2012, o delegado aposentado, ex-delegado do DOPS, no livro: “Memórias de uma Guerra Suja” revela que: Fernando Santa Cruz mais outros nove presos políticos foram mortos e seus corpos foram incinerados no forno da Usina de Açúcar“Cambayba”, localizada no município de Campos, no Estado do Rio de Janeiro. À época era o proprietário dessa Usina, Heli Ribeiro, que segundo Guerra “faria o que fosse preciso para evitar que o comunismo tomasse o poder no Brasil no Brasil.”  

Seu nome consta no anexo da Lei 9.140/95, como reconhecimento de sua prisão e morte sob responsabilidade do estado. 

6 Comentário On Conheça Fernando, o pai do presidente da OAB que Jair Bolsonaro garante saber como foi morto

  • Qual é o espanto? Um elemento que coloca em um pedestal o Ustra que foi o maior torturador na estória do Brasil, o que pode se esperar desse elemento?

  • José J. Ribeiro de Pádua Freire

    É o fim… Graças a Deus que não fui culpado desse verme ser presidente…

  • Se o Bolsonaro sabe como foi assassinado o Fernando Santa Cruz, talvez ele tb saiba
    como foi morto o Stuart Angels e que fim teve o seu corpo. Quem sabe o Bolsonaro
    possa contar como foi o “enforcamento “do Herzog? Talvez possa tb contar sobre
    o que, afinal, aconteceu com ex-deputado Rubens Paiva, após ser preso, torturado,
    e sumir “misteriosamente”.
    Quem mais foi “hóspede” da Casa da Morte e recebeu o “bonus” de sumir sem
    deicar rastro?
    Ah, Bolsonaro deixe o seu registro na História abrindo a “caixinha de segredos”.

  • UM MONSTRO NO PODER.

    Por Fernando Brito · 29/07/2019

    Não houve exagero aqui em dizer que Jair Bolsonaro é um homem sem condições morais de exercer a Presidência da República.

    Não se revela apenas um arbitrário, revela-se um sádico, alguém incapaz de ter respeito a seres humanos.

    A declaração de que sabe minúcias do desaparecimento do pai do presidente da Ordem dos Advogados, Felipe Santa Cruz, que tinha apenas dois anos de idade quando Fernando Santa Cruz foi preso ilegalmente e desapareceu para sempre nos porões da ditadura, é coisa de sádico monstruoso.

    “Se o presidente da OAB quiser saber como é que o pai dele desapareceu no período militar, conto pra ele. Ele não vai querer ouvir a verdade. Conto pra ele.”

    Vai contar, Jair Bolsonaro, vai contar.

    Porque haverá uma interpelação judicial para que o senhor dê conta de suas palavras.

    Este cidadão que enxovalha a Presidência da República, merecia mais de um filho cuja morte do pai vira objeto deste tipo de ameaça.

    É uma abjeção, que foi até onde está porque abjeções menos caricatas o permitiram uma jornada impune, desde os planos de explodir bombas em quartéis para obter aumento de soldo.

    Impune sempre, crê que será impune para sempre.

    Mas Felipe é um homem do Direito e saberá conter o ímpeto da bofetada que mereceria quem diz coisas como essa e procurará os tribunais.

    Resta saber se ainda há, nos tribunais, pessoas dignas e corajosas para dizer ao reizinho que ele não é o dono do país e que não pode brincar com sentimentos tão sofridos como esse.

    Ao menos por terem instalado um monstro no mais alto posto da República.

  • DO FELIPE SANTA CRUZ – PRESIDENTE DA OAB.

    O QUE FiCA É O COMPROMISSO INARREDÁVEL COM A DEMOCRACIA
    por Felipe Santa Cruz

    Como orgulhoso filho de FERNANDO SANTA CRUZ, quero inicialmente agradecer pelas manifestações de solidariedade que estou recebendo em razão das inqualificáveis declarações do presidente Jair Bolsonaro. O mandatário da República deixa patente seu desconhecimento sobre a diferença entre público e privado, demostrando mais uma vez traços de caráter graves em um governante: a crueldade e a falta de empatia. É de se estranhar tal comportamento em um homem que se diz cristão. Lamentavelmente, temos um presidente que trata a perda de um pai como se fosse assunto corriqueiro – e debocha do assassinato de um jovem aos 26 anos.

    Meu pai era da juventude católica de Pernambuco, funcionário público, casado, aluno de Direito. Minha avó acaba de falecer, aos 105 anos, sem saber como o filho foi assassinado. Se o presidente sabe, por “vivência”, tanto sobre o presente caso quanto com relação aos de todos os demais “desaparecidos”, nossas famílias querem saber.

    A respeito da defesa das prerrogativas da advocacia brasileira, nossa principal missão, asseguro que permaneceremos irredutíveis na garantia do sigilo da comunicação entre advogado e cliente. Garantia que é do cidadão, e não do advogado. Vale salientar que, no episódio citado na infeliz coletiva presidencial, apenas o celular de seu representante legal foi protegido. Jamais o do autor, sendo essa mais uma notícia falsa a se somar a tantas.

    O que realmente incomoda Bolsonaro é a defesa que fazemos da advocacia, dos direitos humanos, do meio ambiente, das minorias e de outros temas da cidadania que ele insiste em atacar. Temas que, aliás, sempre estiveram – e sempre estarão – sob a salvaguarda da Ordem do Advogados do Brasil.

  • é gente com a palavra os adoradores da violência e da tortura,que o elegeram.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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