opinião

Da proposta à política pública: a agropecuária e o cooperativismo no Plano de Governo de Cícero Lucena e Diogo Cunha Lima

25 de agosto de 2026

Por Rômulo Araújo Montenegro

A discussão sobre o futuro da Paraíba exige que se ultrapasse a lógica de políticas públicas fragmentadas e se passe a enxergar o desenvolvimento como resultado da integração entre produção, conhecimento, infraestrutura, indústria, mercado e pessoas.

É nesse contexto que a agropecuária paraibana precisa ser compreendida não apenas como uma atividade produtiva primária, mas como parte de uma cadeia econômica capaz de gerar renda, emprego, inovação, arrecadação e oportunidades de desenvolvimento regional.

A Paraíba possui condições importantes para ampliar sua produção agropecuária. Entretanto, produzir mais, isoladamente, não é suficiente. É preciso produzir com produtividade, qualidade, escala, tecnologia e, sobretudo, capacidade de agregar valor.

Essa é uma das razões pelas quais considero relevante a abordagem apresentada no Plano de Governo de Cícero Lucena e Diogo Cunha Lima para o setor agropecuário: a proposta parte da compreensão de que a agropecuária precisa estar articulada à agroindústria, ao cooperativismo, à pesquisa, à inovação, à defesa agropecuária, à assistência técnica, ao crédito e à comercialização.

O desafio de agregar valor

Durante décadas, uma parcela significativa da produção agropecuária brasileira foi comercializada com baixo nível de transformação dentro das regiões produtoras. Isso significa que boa parte do valor econômico gerado a partir da matéria-prima acaba sendo apropriada em outras etapas da cadeia produtiva.

O desafio da Paraíba, portanto, não é apenas aumentar a produção “dentro da porteira”, mas criar condições para que uma parcela maior do valor permaneça no próprio território.

A agroindustrialização pode cumprir exatamente esse papel.

Transformar leite em derivados, frutas em sucos e polpas, carne em produtos processados, mandioca em fécula e derivados, cana-de-açúcar em açúcar, etanol, bioeletricidade e biometano significa ampliar a renda gerada por cada unidade produzida.

É uma mudança de paradigma: sair da economia baseada exclusivamente na produção de matérias-primas para uma economia que valorize a transformação, a tecnologia e o conhecimento.

Agropecuária e indústria precisam caminhar juntas

Não existe agroindústria forte sem uma agropecuária capaz de fornecer matéria-prima de qualidade, regularidade e escala. Da mesma forma, não existe agropecuária moderna e competitiva sem uma indústria capaz de transformar sua produção e ampliar mercados.

Essa interação precisa ser permanente.

Um exemplo interessante vem de São Paulo, onde a Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (FIESP) criou, dentro de sua estrutura, o Conselho Superior do Agronegócio — COSAG. A iniciativa demonstra que a indústria compreende que o agronegócio não termina na porteira da fazenda e que agricultura e indústria fazem parte de uma mesma cadeia econômica.

A Paraíba também precisa construir essa aproximação institucional entre o setor produtivo rural e o setor industrial.

É necessário criar um ambiente no qual produtores, cooperativas, agroindústrias, universidades, centros de pesquisa, instituições financeiras e governo possam trabalhar conjuntamente na identificação de oportunidades, solução de gargalos e construção de novos negócios.

O cooperativismo como instrumento de escala

Um dos principais obstáculos da pequena e média produção rural é a dificuldade de alcançar escala econômica.

O produtor isolado compra insumos mais caros, possui menor capacidade de negociação, encontra maiores dificuldades para acessar tecnologia e crédito e, muitas vezes, comercializa sua produção em condições desfavoráveis.

O cooperativismo pode modificar essa realidade.

Por meio das cooperativas, produtores podem compartilhar estruturas, adquirir insumos em melhores condições, acessar assistência técnica, investir em agroindústrias, padronizar produtos, obter certificações e alcançar mercados que seriam inacessíveis individualmente.

Por isso, o cooperativismo não deve ser tratado apenas como uma política social. Ele precisa ser compreendido como instrumento de organização econômica, geração de escala e competitividade.

É justamente nessa perspectiva que o fortalecimento do cooperativismo agropecuário assume importância estratégica para a Paraíba.

Pesquisa, inovação e tecnologia

Nenhuma política moderna para o setor agropecuário pode prescindir de pesquisa e inovação.

A Paraíba possui instituições, pesquisadores e experiências que poderiam ser mais bem articulados em uma política estadual permanente de ciência, tecnologia e inovação aplicada ao agronegócio.

É necessário aproximar universidades, institutos de pesquisa, produtores e empresas.

A pesquisa precisa chegar ao campo e transformar conhecimento em produtividade.

A inovação, por sua vez, não pode ser compreendida apenas como tecnologia sofisticada. Ela também está presente em novos modelos de gestão, processos produtivos, organização coletiva, comercialização, logística e agregação de valor.

O Estado deve atuar como indutor e articulador desse ecossistema, criando condições para que o conhecimento produzido na Paraíba gere riqueza dentro da própria Paraíba.

Defesa agropecuária e acesso aos mercados

Produzir não basta. É preciso ter condições de comercializar.

A defesa agropecuária é uma das ferramentas fundamentais para isso.

Produtos certificados e submetidos a sistemas eficientes de inspeção e controle sanitário conseguem acessar mercados mais amplos e mais exigentes.

Por essa razão, o fortalecimento da Defesa Agropecuária deve ser tratado como política econômica, e não apenas como uma atividade burocrática de fiscalização.

Uma estrutura moderna de defesa sanitária abre mercados.

E abrir mercados significa gerar oportunidades para produtores, cooperativas e agroindústrias.

A cultura canavieira e a nova bioeconomia

Dentro dessa estratégia de agregação de valor, a cultura canavieira ocupa uma posição particularmente importante na economia paraibana.

A cana-de-açúcar não deve ser vista apenas como matéria-prima para produção de açúcar e etanol. O setor sucroenergético representa uma verdadeira plataforma de bioeconomia, capaz de gerar diferentes produtos e fontes de energia a partir da mesma cadeia produtiva.

Além do açúcar e do etanol, a cana permite a produção de bioeletricidade e abre novas oportunidades relacionadas ao biogás e ao biometano.

O próprio setor sucroenergético brasileiro possui elevado potencial para produção de biogás e biometano a partir dos resíduos da produção e do processamento da cana. (EPE⁠)

Para a Paraíba, essa perspectiva é particularmente relevante. O fortalecimento da agroindústria canavieira pode estar associado a uma estratégia mais ampla de desenvolvimento regional, especialmente considerando o potencial produtivo do território e a possibilidade de integração com áreas como o Canal das Vertentes Litorâneas.

O biometano acrescenta uma nova dimensão a essa cadeia: transforma resíduos em energia, agrega valor à produção e contribui para a transição energética.

A Paraíba já possui experiência relevante na geração de bioenergia a partir da cana, demonstrando que a atividade sucroenergética pode desempenhar papel ainda maior na matriz econômica e energética estadual. (Cana Online⁠)

Nesse sentido, a proposta de fortalecimento da agroindústria canavieira presente na visão de desenvolvimento do Plano de Governo de Cícero Lucena e Diogo Cunha Lima merece ser observada não apenas sob a ótica agrícola, mas como uma política de desenvolvimento industrial, energético e ambiental.

O Canal das Vertentes Litorâneas como vetor de desenvolvimento

A infraestrutura hídrica pode representar uma mudança estrutural na economia paraibana quando associada a planejamento produtivo.

O Canal das Vertentes Litorâneas oferece uma oportunidade que vai muito além da disponibilidade de água.

É possível pensar em um território organizado para produção de alimentos, fruticultura irrigada, pecuária, agroindústrias e geração de energia, desde que exista planejamento, segurança jurídica, infraestrutura, assistência técnica e capacidade de organização dos produtores.

O verdadeiro desafio é transformar infraestrutura em desenvolvimento econômico.

Água, por si só, não gera desenvolvimento. É necessário associá-la a produção, tecnologia, mercado e agregação de valor.

Agricultura familiar e produção comercial

Uma política agropecuária moderna não deve estabelecer uma falsa oposição entre agricultura familiar e agricultura empresarial.

Ambas são importantes para o desenvolvimento da Paraíba.

A agricultura familiar necessita de assistência técnica, organização, acesso a mercados, crédito e tecnologia. A produção comercial, por sua vez, também precisa de infraestrutura, segurança jurídica, pesquisa, defesa agropecuária e condições de competitividade.

O que deve existir é uma política pública capaz de atender diferentes perfis produtivos, respeitando suas características e criando condições para que cada segmento desenvolva seu potencial.

O papel do Estado

O Estado não deve substituir o empreendedor, o produtor ou a cooperativa.

Seu papel é criar condições.

Isso significa oferecer segurança jurídica, infraestrutura, defesa agropecuária, pesquisa, assistência técnica, crédito, capacitação e ambiente favorável aos investimentos.

É preciso também reduzir entraves burocráticos e aproximar o poder público de quem efetivamente produz.

Uma política de desenvolvimento agropecuário precisa ter metas, indicadores e avaliação permanente.

Não basta anunciar programas. É preciso medir resultados.

Uma agenda para a Paraíba

A Paraíba precisa construir uma agenda de longo prazo para o agronegócio.

Essa agenda deve contemplar:

1. fortalecimento da defesa agropecuária;
2. revitalização e modernização da pesquisa agropecuária;
3. ampliação da assistência técnica e extensão rural;
4. fortalecimento do cooperativismo;
5. estímulo à agroindustrialização;
6. acesso a crédito e instrumentos de financiamento;
7. desenvolvimento de cadeias produtivas estratégicas;
8. melhoria da infraestrutura logística;
9. estímulo à inovação e à transformação digital;
10. aproveitamento das oportunidades da bioeconomia e da transição energética;
11. integração entre agropecuária e indústria;
12. abertura e ampliação de mercados nacionais e internacionais.

Essa agenda precisa ultrapassar os limites de um mandato.

Desenvolvimento econômico não se constrói em quatro anos.

Da proposta à política pública

A grande questão, portanto, não é simplesmente saber se a Paraíba possui potencial agropecuário.

Ela possui.

A questão é saber se teremos capacidade de transformar esse potencial em desenvolvimento econômico.

Isso exige planejamento, continuidade administrativa e capacidade de articulação.

A experiência demonstra que projetos bem estruturados, quando associados a instituições fortes e participação do setor produtivo, podem produzir resultados concretos.

Foi essa visão que orientou iniciativas como a implantação do Plano Estadual de Agricultura de Baixo Carbono, a preocupação com a defesa agropecuária, o fortalecimento da assistência técnica e a busca por instrumentos de organização e agregação de valor à produção.

O Plano de Governo de Cícero Lucena e Diogo Cunha Lima apresenta uma oportunidade para transformar essa visão em uma política pública permanente.

Mais do que produzir mais, a Paraíba precisa produzir melhor.

Mais do que vender matéria-prima, precisa agregar valor.

Mais do que estimular produtores individualmente, precisa organizar cadeias produtivas.

Mais do que discutir agricultura e indústria separadamente, precisa compreender que ambas fazem parte de uma mesma economia.

E, sobretudo, precisa criar condições para que a riqueza produzida no campo permaneça, circule e seja multiplicada dentro do próprio Estado.

A agropecuária pode ser uma das grandes plataformas de desenvolvimento da Paraíba.

Mas, para isso, precisamos deixar de enxergá-la apenas como atividade primária e passarmos a compreendê-la como parte de uma complexa cadeia de produção, indústria, energia, tecnologia, comércio e inovação.

Esse é o caminho da agregação de valor.

E é também o caminho para transformar potencial em desenvolvimento.

Sobre o autor

Rômulo Araújo Montenegro é ex-secretário de Estado da Agricultura e Pecuária da Paraíba, ex-presidente do CONSEAGRI, professor universitário, consultor empresarial, produtor rural e diretor regional da Academia Latino-Americana do Agronegócio (ALAGRO). Ao longo de sua trajetória, tem atuado na formulação de políticas públicas para o desenvolvimento agropecuário, com experiência em gestão, planejamento, cooperativismo, agroindustrialização, inovação e sustentabilidade.

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