O cabaré de Estrela ficava na Rua da Lapa, duas carreiras de casas, uma de costas para o Açude Novo e outra espiando as águas claras do Macapá.
Era a derradeira do Bairro do Cruzeiro, moradia dos pobres que se enfiavam em casas apertadas, pegadas umas nas outras.
As das raparigas não eram melhores, todas paredes meias.
Nelas as putas moravam e atendiam a clientela, que se dirigia aos cubículos depois de comer a buchada, a linguiça caseira e os quitutes de Estrela, àquela altura do campeonato de xibiu aposentado, reservado apenas a Pedro Caboclo, seu xodó até o fim da vida.
Pedro era sapateiro, morava em Recife. Um dia foi visitar os parentes em Princesa, deu uma passada no cabaré, conheceu Estrela, os dois se enrabicharam e nunca mais voltou a Pernambuco.
Arranjou logo um emprego na sapataria de Costiano e, durante um desfile de Sete de Setembro, pediu a corneta a Parangolé, tocou um dobrado e virou corneteiro oficial dos desfiles cívicos do Ginásio Nossa Senhora do Bom Conselho.
Foi morar com Estrela, administrava o bar, a amante a cozinha, quituteira famosa, objeto de desejo dos homens e das mulheres honradas da cidade. É tanto que os casados minimizavam as escapulidas levando saborosas galinhas de capoeiras ao molho pardo para suas “conjes”.
As putas eram igualmente belas e dentre as tantas destaco Ritiquinha, uma veterana de Teixeira que um dia virou caso do meu irmão Zé Birrim e, quando Birrim se foi para São Paulo, matou as saudades dele ensinando ao irmão imberbe os segredos do amor.
Além dela, faziam sucesso entre os homens ávidos por sexo, Litinha, uma linda morena de olhos adocicados; Pipoca, mulata puxada a índia dona de uma bunda que chamava a atenção; Toinha Baú, a mais bonita e desejada e, por isso mesmo, maior transmissora de doenças do mundo do cabaré; Pixuita, a cobiçada pelos ricos, mas que um dia deixou o irmão de Tião em petição de miséria, todo chupado e roxo. Tinha mais: Socorro Rouca, Bola, Lindauva, comadre Lourdes Branca e Expedita de Aderbal.
Nos começos, as meninas do cabaré faziam suas estrepolias e iam se lavar nas águas do açude. Com o progresso, ganharam bacias de ágata e se limpavam com a água despejada da quartinha, a mesma água que lavava as extrovengas saciadas dos amores fugazes.
Depois da cama, o forró a cargo da sanfona de Mané Tocador, João Caiti na voz, Birrim no cavaquinho e João de Né no Pandeiro fazia a animação.
Até onde me é dado saber, a Rua da Lapa, o antigo cabaré, continua do mesmo jeito. As raparigas é que sumiram, se encantaram, foram morar num outro paraíso.




10 Comentários
[…] Link da fonte aqui! […]
Tião, acho muito ótimo demais quando você traz essas recordações do Cabaré de Estrela aqui na nossa cidade de Princesa Isabel. Hoje, aos 74 anos, me vem à memória muitas dessas damas da noite que viviam naquela “casa de pasto”. Você esqueceu de citar o nome de RITA QUARTO DE BODE, que remexia na cama feito uma peneira. Qualquer que fôsse o pêso do homem, ela fazia o remexido, acelerando o ápice do coito. RITA QUARTO DE BODE foi quem tirou meu cabaço (eu tinha 16 anos), numa tarde chuvosa de sábado. Depois, segurei uma bacia com água, ela lavou minha chibata com sabão Jabacó e enxugou com um pano de prato que estava pendurado num prego na parede. Fiquei um frequentador assíduo, todo sábado quando ia fazer a feira. Nunca peguei um doença, até porque quando terminava dava logo uma mijada , Depois que eu mijava, RITA fazia o “asseio”.
E hoje elas asseiam com a língua!
BOM DIA, TIÃO LUCENA, EU ACHO BONITO QUEM ESCREVE BEM. O SEU ARTIGO SOBRE ÊSSE TAL CABARÉ DE ESTRÊLA, NA SUA CIDADE, FOI PERFEITO. EU LI E RELI E DURANTE A LEITURA ME TRANSPORTEI ÀQUELE AMBIENTE COMO SE NELE ESTIVESSE, SEM AO MENOS CONHECER A CIDADE PRINCESA ISABEL-PB. LOUVE-SE TAMBÉM O COMENTÁRIO DO SR. EDGAR, UM CIDADÃO COM 74 ANOS QUE AINDA GUARDA BELAS RECORDAÇÕES DO AMBIENTE.
Bastião, você que provavelmente frequentou êsse tão badalado Cabaré de Estrêla, sabe informar se as raparigas faziam o hoje popular “BOQUETE” ?
Êsse blog é, realmente, uma resenha. Aqui tem tudo. Economia, política, Cabaré de Princesa Isabel e o diabo a quatro. Mas, não vejo participação de mulheres nos comentários. Tenho certeza que muitas mulheres acessam êsses artigos do Tião e acham bom, se divertem. Tião, continúe com essa pauta porquê é um verdadeiro “su”. Veja quantos comentários interessantes. Faltou você dizer se frequentou o tal Cabaré de Estrêla.
Prezado Tião, sou leitor assíduo do seu blog. Fico imprecionado com a facilidade como você escreve, você nos leva a sua querida cidade Princesa Isabel. De tanto você falar na sua cidade, quando entrar de férias em novembro, vou conhecer Princesa. Parabens e forte abraço.
Cabaré de primeira qualidade era o de MADAME ARARA, em Guarabira. Ali aportavam mulheres advindas de Natal, Caicó, Recife e até de Fortaleza. Ambiente requintado, frequentado por fazendeiros, advogados, comerciantes, a grande maioria era de homens casados. Madame Arara sabia receber os clientes com esmêro e dedicação. As melhores e mais jovens mulheres não ficavam no salão. Eram mantidas numa área reservada. Eram as mais caras. Só comia quem tivesse muito dinheiro. Só entrava no local reservado por indicação de Madame Arara. O extinto Cabaré era localizado numa área atualmente considerada nobre, com belas residências.
NO LUPANAR PRINCESENSE
CABAÇOS SE ESPATIFARAM
MESMO ALGUMAS LÍNGUAS
TAMBÉM LÁ SE ESGAÇARAM
NÃO SE FOI ASSIM COM TIÃO
MAS AS SAUDADES FICARAM
ESGARÇARAM