opinião

O cooperativismo pode ser a chave para um novo ciclo de desenvolvimento do Nordeste?

14 de julho de 2026

Por Rômulo Araújo Montenegro Professor Universitário, Consultor Empresarial, Produtor
Rural e Ex-Secretário de Estado da Agricultura e Pecuária da Paraíba.

O Brasil construiu uma das agriculturas mais competitivas do mundo. Somos líderes na
produção e exportação de diversos alimentos, resultado da combinação entre
pesquisa, empreendedorismo, inovação tecnológica e capacidade de adaptação do
produtor rural.
Entretanto, esse desenvolvimento não ocorreu de maneira uniforme. Enquanto
algumas regiões consolidaram cadeias produtivas altamente organizadas, outras ainda
enfrentam dificuldades para agregar valor à produção, acessar mercados mais
exigentes, ampliar a industrialização e elevar a renda dos produtores.
Diversos fatores contribuem para esse cenário: infraestrutura, logística, disponibilidade
de crédito, assistência técnica, pesquisa agropecuária e políticas públicas. Mas existe
um componente que, muitas vezes, recebe menos atenção do que merece: o
cooperativismo.
Ao longo das últimas décadas, estados como Paraná, Santa Catarina e Rio Grande do
Sul transformaram o cooperativismo em um verdadeiro instrumento de
desenvolvimento econômico e social. Mais do que comercializar a produção de seus
associados, as cooperativas passaram a oferecer assistência técnica, adquirir insumos
em escala, investir em armazenagem, agroindustrialização, inovação, capacitação e
acesso a mercados internacionais.
Estudo da FIPE, em parceria com o Sistema OCB, aponta que municípios com
cooperativas apresentam, em média, melhores indicadores de renda e emprego. O
Censo Agropecuário do IBGE também evidencia uma participação muito mais
expressiva de produtores cooperados na Região Sul do que no Nordeste, revelando o
potencial de expansão desse modelo.
Isso não significa que o cooperativismo seja a única explicação para as diferenças de
desenvolvimento entre as regiões brasileiras. Entretanto, a experiência nacional e
internacional demonstra que cooperativas bem estruturadas ampliam a escala de
produção, reduzem custos, facilitam o acesso ao crédito, incentivam a inovação e
fortalecem a inserção dos produtores em mercados mais competitivos.
O Nordeste reúne uma agricultura familiar dinâmica, importantes polos de fruticultura
irrigada, pecuária leiteira, caprinovinocultura, apicultura, aquicultura e pesca. Em
muitas cadeias produtivas, porém, os produtores ainda comercializam de forma
individual, reduzindo seu poder de negociação.
Na Paraíba, fortalecer o cooperativismo representa uma oportunidade estratégica para
impulsionar cadeias como leite, frutas, mel, pescado, horticultura e agricultura familiar.
Integradas às instituições de pesquisa, assistência técnica, crédito e inovação, as
cooperativas podem contribuir para dinamizar economias locais, gerar oportunidades
para os jovens no campo e ampliar a competitividade da produção.
Mais do que criar novas cooperativas, o desafio é fortalecer as existentes, investir em
governança, profissionalização da gestão, formação de lideranças, intercooperação e
agregação de valor por meio da agroindustrialização.
O cooperativismo não deve ser compreendido apenas como um modelo de organização
econômica. Trata-se de uma estratégia de desenvolvimento regional, capaz de
conciliar eficiência, inclusão produtiva e distribuição de oportunidades.
Ao discutirmos o futuro da agropecuária nordestina, talvez a pergunta mais importante
não seja se devemos investir no cooperativismo, mas como construir um ambiente em
que ele possa florescer de forma sustentável e competitiva. A experiência dos estados
mais desenvolvidos demonstra que a cooperação organizada não substitui o
empreendedorismo individual; ao contrário, ela o fortalece.

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