
Miguel Lucena
Os amigos Edivaldo, Mário, Valdeir, Cícero e Chico se encontravam diariamente no Bar de Marcos, na Rua Grande de Princesa, para tomar meiotas de cana e contar lorotas, no final dos anos 1970. Começavam por volta das onze da manhã e só terminavam quando já quase não tinham mais forças para caminhar em linha reta.
Certo dia, por algum mistério que nem eles saberiam explicar depois, começaram a beber mais tarde e emendaram a farra noite adentro, voltando para casa quando até os cachorros já tinham desistido de latir.
Nessa mesma noite, um grupo de rapazes bêbados saiu cantando pela Rua Grande, à meia-noite, quando a cidade dormia, um hino da Igreja Católica:
— O Evangelho é a boa nova que Jesus veio ao mundo anunciar!
Mal sabiam os foliões que uma beata insone, dessas que dormem com um olho fechado e outro vigiando os pecados da vizinhança, ouviu o sacrilégio. Logo cedo, antes da missa da manhã, correu para contar tudo ao frei Atanázio.
Na missa, o frei subiu ao púlpito com a indignação dos justos e a informação errada dos fofoqueiros. Amaldiçoou os ébrios Edivaldo, Mário, Valdeir, Cícero e Chico, condenando-os pela heresia e lançando sobre eles o peso do castigo divino.
Ao longo dos anos 1980 e 1990, os amigos foram morrendo, um a um, como se a sentença do frade tivesse mesmo sido lavrada no cartório do céu. Edivaldo pereceu de cirrose. Mário terminou seus dias atormentado por delirium tremens, vendo jumentos verdes atravessarem a sala. Valdeir morreu de diabetes. Cícero, em sua agonia final, vomitou o fígado. Chico foi baleado quando voltava para casa, na Rua do Cruzeiro.
A história virou lenda em Princesa. Durante anos, o castigo de Deus, a pedido do Padre Atanázio, foi comentado nas esquinas, nas calçadas e principalmente no Banco do Pau Mole, em frente à loja de Valdemar Abrantes, onde velhos aposentados passavam o dia falando da vida alheia com a autoridade de quem já não tinha mais vida própria para cuidar.
Muitos anos depois, o curioso delegado Cabral, instigado pelo delegado aposentado e literato Aldo Lopes, resolveu remexer nos registros da Delegacia de Polícia. Foi então que descobriu a verdade escondida sob a poeira dos livros antigos.
Naquela noite de 1979, um grupo de rapazes havia sido detido por cantar alto pela Rua Grande, depois de uma farra no Bar de Mirô Arruda e na boate de Bartolomeu. Foram levados à delegacia, ouviram uma simples advertência e, pouco depois, ganharam a rua de novo.
Mas os autores da cantoria não eram Edivaldo, Mário, Valdeir, Cícero e Chico.
Eram João, Sebastião, José, Dionísio e Wellington.
Todos, no futuro, homens bem-sucedidos na vida.
Foi assim que Princesa descobriu, tarde demais, que o crime do Padre Atanázio não foi ter amaldiçoado cinco bêbados, foi ter condenado sem julgar, sem perceber que o mal não está no que se pensa; o mal é o que sai da boca do ser humano.




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