O segundo turno é outra eleição.
Miguel Lucena
O Muitas coisas mudam de um turno para outro, a começar pela disposição das forças políticas que estiveram nas ruas até a abertura das urnas.
A maioria dos candidatos eleitos tende naturalmente a diminuir o ritmo depois de garantir o próprio mandato. Dos 27 governos estaduais, 20 foram definidos já no primeiro turno, um recorde desde o início da série histórica em 1990. Alguns dos vencedores certamente vão preferir pescar, descansar ou simplesmente aliviar o estresse de meses de campanha.
É aí que entra um elemento decisivo: militância.
O segundo turno será vencido não apenas na televisão e nas redes sociais, mas nas ruas, nas conversas e na capacidade de buscar quem não compareceu às urnas, votou em branco ou anulou o voto.
E existe um oceano eleitoral a ser disputado. A abstenção chegou a 21,08% — mais de 33,4 milhões de eleitores. Além disso, foram 2.300.781 votos brancos e 3.674.149 nulos. Somados, brancos e nulos representam 5.974.930 votos.
É muita gente. E, numa disputa apertada, convencer uma parcela desse eleitorado pode decidir quem governará o Brasil.
A esquerda, que historicamente possui organizações partidárias, sindicais e movimentos sociais com capacidade de mobilização, precisa transformar essa estrutura em presença nas ruas. Mas não basta pedir voto. É preciso explicar o que está em jogo.
Aposentadorias, pensões, salário mínimo, direitos trabalhistas e programas sociais precisam ocupar o centro do debate. A população deve conhecer claramente as propostas de cada candidato para essas áreas e avaliar quem pretende ampliar a proteção social e quem poderá reduzi-la.
Também será necessário discutir soberania nacional. O Brasil possui riquezas estratégicas, entre elas minerais críticos e terras raras, que serão cada vez mais cobiçados pelas grandes potências. Não podemos transformar patrimônio estratégico brasileiro em moeda de troca diplomática.
Do outro lado está a promessa permanente de confronto institucional. Uma parcela mais radical do bolsonarismo espera vingança contra ministros do Supremo, ruptura com instituições e uma espécie de revanche política. Mas entre a retórica incendiária e a realidade do exercício do poder existe enorme distância. A família Bolsonaro aprendeu há muito tempo a vender aos seus seguidores expectativas que dificilmente consegue entregar.
O segundo turno também deve ser uma eleição de biografias.
Flávio Bolsonaro precisa ser confrontado com as contradições entre o discurso moralista de defesa da família e combate à corrupção e os episódios de sua trajetória pública que merecem explicações.
Hoje existe algo muito mais concreto do que retórica eleitoral: Flávio é formalmente investigado no caso do financiamento do filme “Dark Horse”, sobre Jair Bolsonaro. Documentos da Polícia Federal apontam que ele atuava como interlocutor direto de Daniel Vorcaro na negociação dos recursos. O próprio Flávio admitiu ter mantido contato com o banqueiro, embora negue qualquer crime e sustente que se tratava de patrocínio privado.
É assim que o debate deve ser feito: documentos, fatos, investigações, explicações e contraditório.
As antigas controvérsias envolvendo dinheiro em espécie, imóveis e negócios da família Bolsonaro também pertencem ao debate público, desde que apresentadas com rigor e documentação. Quem pretende presidir o Brasil precisa estar preparado para explicar cada ponto de sua vida pública e patrimonial.
Flávio Bolsonaro chegou ao segundo turno na frente: obteve 56.104.268 votos, ou 47,03% dos válidos, contra 53.876.617, ou 45,16%, de Lula. A diferença existe, mas está longe de tornar a eleição decidida.
Há mais de 33 milhões de brasileiros que não foram votar. Há quase 6 milhões que votaram branco ou nulo. Há milhões que escolheram outros candidatos e agora terão de decidir entre apenas dois.
É nesse universo que a eleição começa novamente.
Se os democratas e a esquerda quiserem vencer, não poderão esperar que a vitória venha por gravidade. Precisarão conversar com o povo, apresentar propostas, comparar governos, confrontar contradições e explicar, ponto por ponto, o que cada projeto representa para a vida concreta dos brasileiros.
O primeiro turno terminou.
O segundo turno é outra eleição.
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