O terreiro de Niumízia

O terreiro de Niumízia era o mais bonito do Sítio Cabeça do Porco. Não que tivesse alguma coisa de extraordinário. Pelo contrário, era simples, de chão batido, com uns pezinhos de plantas ornamentando seus aceiros e galinhas ciscando o barro vermelho, procurando minhocas e besouros. Mas era naquela simplicidade que residia a beleza do terreiro de Niumízia, a prima da Cabeça do Porco que morava naqueles ermos sem sentir saudades das ruas de Princesa, embora tivesse dinheiro suficiente para comprar uma casa na cidade e para ela se mudar.

A casa de Niumízia tinha alpendre e calçada alta, de cimento. Na sua fachada desenhavam-se largas janelas e na calçada um banco de madeira convidava a quem chegasse lá para dar uma sentadinha e trocar dois dedos de prosa. Prosa que vinha sempre acompanhada de um café quente, daquele torrado no caco com sabor de casa , de prima, sabor de Niumízia. E o café era acompanhado de broa de milho, tapioca alvinha que parecia nuvem de verão, além de bolo assado na banha de porco.

As galinhas ficavam bicando e engordando, para serem bicadas por nós, as visitas. E como eram gostosas as galinhas de Niumízia! Tinha galinha nanica, galinha pedrês, galinha de raça, galinha do pé seco, galinha poedeira, galo brigador, guiné, pato e até um papagaio chamador de nome feio que a gente o batizou de João Cuscuz, em homenagem ao filho de Dona Nadir, a irmã de Chico Soares, nosso conhecido Canhoto.

Niumízia morava num vale, de onde se avistava mato verde com cheiro de chuva, serras que se enterravam no céu e grandes árvores que serviam de casa para rolinhas, juritis, sabiás, concris, caga-sebo, anuns pretos, anuns brancos, gaviões, galos de campina, pardais, azulões, golinhas, bem-te-vis e jacus. Pelos caminhos estreitos que nós chamávamos de veredas, avistávamos preás, camaleões, teús, pebas, tatus e mocós de fundos vermelhos. A caça era abundante, de modo que, por lá, só comia puro quem queria.

Niumízia, viúva, morava com a filha Laura, que ficou no caritó e o filho Expedito, sujeito despranaviadoque trabalhava feito burro durante a semana, mas quando chegava o sábado, dia de feira, enchia a cara de cachaça e dava para fazer discurso na bodega de Zé Alvelino. Incontáveis vezes comprou o quilo de carne de porco no açougue de Princesa, levou-o até a bodega pendurado no cordão de agave e o esqueceu, só chegando ao destino quando não mais servia para comer.

Foi ele quem, num distante 1960, saiu de casa, na Cabeça do Porco, pegou carona num caminhão e danou-se para o Recife, com o objetivo de sentar praça no Exército Brasileiro. Viveu por lá seis meses e, depois disso, recebeu permissão para passar as festas juninas com a família, na Paraíba. A notícia da sua chegada agitou Cabeça do Porco, já que ver gente de Capital não era coisa comum por aquelas bandas. Niumízia se vestiu a caráter, Laura até batom esfregou nos beiços de moça velha e foram todos esperar o representante da família que estava a serviço do Exército Nacional.

Era dia de feira, dia da chegada do ônibus que Zé Mendes mantinha fazendo a linha de Princesa até Recife. A notícia da vinda de Expedito mexeu com o povo, que se postou na praça esperando o ônibus. As três da tarde em ponto, desembocou na Rua do São Roque o transporte tão esperado. E quando parou, todo mundo prendeu a respiração para ver o ilustre passageiro. Expedito, mais gordo e corado, desceu vestindo o uniforme de gala do Exército. Quando botou os pés no calçamento, avistou dois soldados da Polícia e exigiu que lhe batessem continência. E ao se encontrar com a mãe, depois do abraço apertado, respondeu-lhe quando ela perguntou como era o Exército:

– O Exército é fodinha, mãe!

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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