O VÉI DO PIFE

Miguel Lucena*
Quem primeiro escreveu sobre o Véi do Pife foi Otávio Sitônio, um dos maiores intelectuais da cidade de Princesa, uma cidadela na fronteira de Pernambuco, perto de Triunfo e Serra Talhada, repleta de poetas, como João Paraibano, escritores e oradores, como Alcides Carneiro, considerado o maior de todos enquanto vivo.
Princesa sempre foi pequena. Conta hoje com 25 mil habitantes. Em 1925, instalou a primeira Academia de Letras Modernas, seguindo a tendência paulista e mundial. Foi a cidade que recebeu a primeira revendedora da Ford.
Princesa apoiou e elegeu o primeiro presidente da República paraibano, Epitácio Pessoa, que costumava ir lá uma vez ao ano e dormia no Palácio do Coronel José Pereira de Lima, meu parente.
Lá para as tantas, resolveram desdenhar de Princesa, importando do Rio de Janeiro um governante para a Paraíba. Trouxeram João Pessoa, sobrinho de Epitácio, cheio de sotaques. A primeira providência dele foi chamar e enquadrar Zé Pereira. Eita, pau Pereira, que em Princesa já roncou!, dizia a canção. E não deu outra: rompimento total.
O carioca resolveu invadir Princesa, com suas forças policiais, mas só tomou bala e derrota. Meu avô por parte de mãe, cuja família fundou Princesa e era parente do coronel, morreu naquele tempo, não vi direito nem o seu retrato, diziam que era feio como a guerra. Minha avó morreu  três anos antes de eu nascer, por isso já adotei um neto, Biel, para sempre, antes de desencarnar.
O Véi do Pife era cego, não lia as notícias. Quando o Exército invadiu Princesa, após o triunfo da Revolução, ele gritava:
– Viva o Coroné Zé Pereira!
Era preso e apanhava.
Perguntavam por que ele tinha aquela devoção e ele respondia:
– O presidente de vocês também tinha.
*Miguel Lucena é delegado de Polícia Civil do DF, jornalista e escritor.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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