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Ramalho Leite
O escritor Marcos Cavalcanti está nos agraciando com mais um livro. O texto abaixo é a segunda parte da apresentação do seu trabalho, um romance que cheira a terras e matas da Serra da Copaóba onde morejavam os potiguaras e a índia IRATEMBÉ, a dos “lábios de mel”.
Quando mais longe do cacique, mais seguro deveria se sentir o traidor. Para Iratembé restaria a saudade da mata. O progresso que a encantara na Vila de Goiana agora era sentido como uma prisão em Olinda. O coro dos pássaros fora substituído pelo som dos sinos das igrejas. “As igrejas de Olinda eram belas, mas para Iratembé, elas eram montanhas de pedra morta. Seu espirito, capturado mas não domado, começava a trilhar o caminho de volta em seus sonhos, buscando a trilha invisível que a levaria de volta ao abraço verde de sua aldeia”.
Descoberta a traição e a fuga, o Cacique encarrega dois de seus filhos para partirem em busca de Iratembé e não regressarem sem trazê-la para o convívio dos seus irmãos. “Onde está Iratembé? Onde está a luz dos meus olhos?” Indagava o Iniguaçú. O longo trajeto da Serra da Copaóba até Olinda, passando pela Vila de Goiana, é narrada com detalhes. Os irmãos de Itarambé buscavam o mameluco menos por vingança e mais pelo resgate de um amor filial ferido. O cacique instruiu seus filhos: “as águas levam, mas as aguas também trazem! O mameluco conhece a mata, mas nós somos a mata!”. A Justiça tinha que ser feita e seus filhos não seguiriam pelas estradas, mas “seguiriam o faro da traição”.
Os irmãos Timbira e Japiaçú percorreram engenhos e senzalas, vilas e arruados perguntando pelo conhecido mameluco e sua companheira de viagem. Encontraram rastos de sua passagem na Vila de Goiana e partiram em direção a Olinda. Era o mesmo percurso dos mercadores do açúcar refinado que se produzia nos engenhos da região. “O destino agora tinha o nome de colina e cheiro de mar aberto”. Em Olinda, os irmãos conseguiram sensibilizar a autoridade do Capitão-mor e este deu ordem a Justino/Tibal que devolvesse a índia potiguara a seus familiares. Sem alternativa digna, o mameluco preferiu partir e, depois de atravessar o Velho Chico, perdeu-se para as bandas do sul.
Com a autoridade a seu favor, os irmãos tabajaras conseguiram reaver Itarambé. Mas as dificuldades deles não acabaram em Olinda. Desgraça maior foi procurarem refugio no Engenho Tracunhaém, do coronel Diogo Dias. Este, impressionado com a beleza da índia, resolveu apropriar-se dela, o que comunicou a seus irmãos que reagiram com palavras mas evitaram usar suas armas, uma vez que estavam em visível desvantagem perante a capangagem do engenho. Os irmãos voltaram de mãos vazias. Itarambé ficara prisioneira de Diogo Dias. A tragédia se avizinhava.
O Cacique Iniguaçú, diante do fracasso da missão dos filhos, preparou-se para a vingança. Agora, contra o Engenho de Diogo Dias. Reuniu várias tribos e até algumas tabajaras se juntaram. Cerca de dois mil indígenas partiram em direção a Tracunhaém. A estratégia do embate e os detalhes do massacre estão narrados com precisão e amparados nos escritos da época que o registraram como o Massacre de Tracunhaém ou Batalha de Tracunhaém onde cerca de seiscentos mortos, entre bancos, pretos e mestiços foram contados entre os quais o senhor do engenho e sua família. Das cinzas, o Cacique Iniguaçú resgatou a sua filha e voltou com ela nos braços para sua aldeia.
O massacre de Tracunhaém teve repercussão na sede da Coroa Portuguesa. Marcos Cavalcanti não resiste ao seu viés de historiador e conclui demonstrando que esse trágico evento terminou por resultar a fundação da Capitania da Parahyba. O livro é baseado em fatos históricos, mas aproveita lendas, superstições e costumes indígenas, enveredando por uma narrativa romanceada que agrada ao leitor de qualquer idade. Daí porque, entrou por uma perna de pinto, saiu por uma perna de pato e o senhor Rei mandou dizer que quem quiser que conte quatro.
Boa leitura!




1 Comentário
Os irmãos Timbira e Japiaçú eram Tabajaras ou Potiguaras?