1 – Conversava com um amigo sobre a descaracterização das cidades tidas como históricas e, claro, Princesa entrou no meio. Como está descaracterizada! A deixei do jeito que era, quando voltei encontrei tudo derrubado e substituído por monstrengos de cimento. Casas com mais de cem anos deram lugar a pitorescas construções que nada tinham de bonitas, eram todas de dois pavimentos, embaixo a bodega, em cima a residência.
2 – Sobraram quatro sobrados, os de Manezinho Pereira, de Antônio Maia, de Aderbal e um conjunto pertencente à família Maia que abriga a antiga Farmácia Maia, a loja de João Franca, a de Milton e o café de finado João do Guirra.
3 – Também continua de pé a antiga loja de Migué de Nequim, hoje adaptada a uma casa de pasto, muito boa por sinal, local de reuniões de jovens, velhos e mais ou menos.
4 – A periferia, pelo menos por enquanto, continua do mesmo jeito que era. Inclusive o “Escorregou Tá Dentro”, ruazinha estreita que divide o Cancão do Ferreiro. Nessa ruazinha morou Antônio Malaquias e sua imensa prole. Também morava, lá na ponta, finado Dodô. Quando eu era menino ia à sua casa ler os gibis de Tarzan.
5 – A antiga Pedra do Urubu, cagador dos moradores do Cancão, foi dinamitada, o local era ermo, hoje moram ali pessoas importantes como o ex-prefeito Assis Maria e o jornalista Zé Duarte Lima. No meu tempo se fazia fila no entorno da pedra para aliviar as tripas. Cada um segurando o sabugo salvador, aquele que, além de limpar, coçava e dava lustre.
6 – Do outro lado do Cancão dando para o Açude Velho havia a Rua da Gaveta, hoje Rua da Cadeia por causa da transferência do presídio, que saiu do centro da cidade para a periferia. Rua de Né do Ó e sua amada Ambrosina, bem como dos filhos do casal Socorro, João de Né, Edelson e Zé de Alice.
7 – Né do Ó era mouco dos dois ouvidos, mesmo assim dirigia para Seu Mano. Certa vez sobrou numa curva e bateu com a Roquete de Seu Mano num poste. Desesperado e em desembestada carreira, deu de cara com o filho João, a quem deu o recado para ele transmitir à esposa:
- João, filho do meu coração, diz a Petrolina que vou pra Ambrosina!
8 – E havia os dois tanques, de Dona Bezinha e de Joaquim Mariano. Eram lagoas que se formavam nas grotas dos lajedos com as águas das chuvas. Os proprietários os cercaram e vendiam a água ao povo. Ivo de Dona Bezinha gerenciava os tanques da mãe, cada lata d`água a dois minrréis. Pelos tanques de Joaquim fiz atalhos para alcançar os fundos do matadouro, onde me encontrava com a musa proibida para falar de amores impossíveis.
9 – Até onde me é dado saber, a Rua da Lapa, o antigo cabaré, continua do mesmo jeito. As raparigas é que sumiram, se encantaram, foram morar num outro paraíso. E como eram doces as raparigas da Rua da Lapa! A começar por Estrela, a dona de tudo, seguindo-se Toinha Baú, Lindalva, Litinha, Pipoca, Lourdes Branca, Expedita de Aderbal, Socorro Rouca, Pixuita, Bola e,claro, Rita Quarto de Bode, que era apaixonada por Zezão meu irmão e, na sua ausência, fazia caridade aos cunhados.
10 – Sim, resta ainda de pé o Palacete de Zé Pereira, hoje abrigando a Academia Princesense de Letras. Precisa de intervenções urgentes, o Governo bem que poderia ajudar, os proprietários carecem dessa ajuda para manter o palacete de pé. Fica a dica.
11 – E agora lá se vão meus abraços sabadais para Sales Cordeiro, Damião Antas, Geraldo Andorinha, Veronese Lima, Marçal Lima Filho, Marçal de Batista, Rosane e Thiago Pereira, Tadeu Florêncio, Carlos Pata Choca, Wilma Lima, Edmilson e Miguel Lucena, Nininha Lucena, Zé de Edezel, Damião de Zé de Quinca, Dedé de Genésio, Joca Fernandes, Cabo Lira, Zé de Biu, Dió de Vitalina, Lourdes Fogueteiro, Preta de Luizinho, Carminha de Astreço, Bicudo Massaroca, Maria de Tia, Virgolino Medeiros, Alexandre Maia e Lilia Muniz Fernandes.
12 – Dizem que Bastinho era o terror das donzelas, mas na verdade ele passava nos peitos donzelas e viajadas. Outra coisa que ele apreciava muito era comer bem. Comia de tudo e muito. Como naquela festa regada a peru, pirão de tutano e muito arroz do Piancó.
Passou mal depois de devorar três pratos do mais legítimo angu de milho com caldo de mocotó e rabada. chegou a desmaiar. Alguém receitou leite de peito de mulher, uma dama que estava amamentando se prontificou, espremeu o leite num copo e chegou ao nariz de Bastinho para ele cheirar, tornar e beber.
- O que é isso? -, perguntou o enfermo.
- É leite de peito, seu Bastinho -, informou e prestativa dama.
E Bastinho, mal conseguindo balbuciar:
- Mamando né mió não?




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