1 – Aos sábados e domingos me dou ao desfrute de não falar sobre política, embora faça das tripas coração. É que tiro os dois dias para desintoxicar do rame rame politiqueiro que toma conta da família, das amizades, dos ambientes e até das alcovas. Sei que é difícil, dificílimo, mas, como disse lá em cima, fazendo das tripas coração a gente chega lá.
2 – Fazer feira está se tornando um martírio, voltaram as maquinetas de remarcação e como ninguém se perde na volta, as maquininhas voltaram com vontade de tirar o atraso. Qualquer ida ao supermercado custa de 300 pra cima, isso sem botar a carne no meio, porque com ela a pancada do bombo é ainda pior.
3 – O jeito é apelar para a feira livre. Sou fã da feira desde os primórdios, desde os tempos em que ia a ela sem a obrigação de comprar nada, só rosetar, tomar cachaça ao lado dos meus amigos lisos e encher a paciência de Luizinho de Calu com loas de pé quebrado.
4 – Lembro como se fosse hoje, Ruy da Saelpa comandando a tropa e seguindo para as batalhas, que sempre começavam no açougue com os pedidos de doação de carne para o tira-gosto. Augusto Preto dava a carne de porco, Veri descolava meio quilo de algum pedaço do boi e lá íamos nós pedir a Preta de Luizinho para assar as doações e aguardar quem doasse a meiota de Serra Grande.
5 – João Fernandes, que vendia feijão, farinha e arroz na feira, era um dos doadores, Samuel Medeiros outro, as doações se multiplicavam, a caeba corria solta, a carne era consumida com farinha e saiamos de lá felizes, alimentados e dispostos ao segundo turno da feira que era o namoro com as meninas dos sítios nas bibocas da Lagoa e nos escondidos da Biblioteca de Seu Mano.
6 – Tempos de liseu, de estonteantes aventuras, tempos felizes, irresponsáveis mas sem preocupações com o amanhã, nem com as aparências. A sociedade que se fudesse, o mais importante era viver a vida como ela era, do jeito que estava, estava bom, aliás, bom não, muito ótimo demais.
7 – O tempo é outro, a carne doada virou lagosta, não para os jovens de antanho, mas para figurões que se exibem como exemplares da dignidade moderna e se doam para receber de volta vantajosas doações sob o tilintar dos copos de uísques finos e a fumaça de perfumados charutos.
8 – Sem contar as orgias, as surubas, cento e vinte mulheres para vinte homens, priquitos em excesso para rolas semi-mortas, mantidas despertas pelo vigor do tadalafila ou das próteses penianas, um verdadeiro horror.
9 – Disse que não falaria em política e terminei falando. É um vício, uma agonia, uma tentação sem tamanho, ou de tamanho família. É que o assunto, embora sujo e fedorento, contamina, tenta, assume o controle da mente e dos gestos, fica igual a cururu, a gente botando pra fora e ele voltando, insistindo e não desistindo.
10 – Ainda bem que falta pouco, 14 dias num instante passa, de lá, se não houver segundo turno, seguiremos livres e desimpedidos, prontos para novas aventuras e, quem sabe, participar daquela festança com as moças das estranjas e seus xibius falantes ao custo de 0800 para nós.
11 – E lá se vão meus abraços sabadais para Odon Bezerra, Sales Fernandes, Julio César Ramalho, Gilberto Carneiro da Gama, Kalina Alencar, Zé Souto Filho,Luiz Motorista, Sargento Nivaldo, Messias Fernandes, Fábio Mozart, Sérgio Botelho, João Costa, Lula Lucena, Chico Franca, Marcos Pires, Marco Antônio Gouveia de Morais, Lucas Araújo, Zé Euflávio, Mário Gomes, Diego Lima, Herbert Fittipaldi, Ricardo Coutinho, Chico Pinto, Murilo Barreto, Paulo Josafá e Hilomar Araújo.
12 – A patente militar sempre foi mais valorizada, no interior, do que qualquer coisa. O matuto considera o delegado de política mais poderoso do que o doutor juiz ou o próprio vigário. E isso, no passado, era muito mais acentuado. Não era atoa que os ricos daquele tempo compravam patente de major e coronel para assim serem chamados pelos seus comandados.
A propósito, quando o presidente Dutra visitou a Paraíba, para ver de perto a barragem de Coremas, foi abordado no momento em que se deslumbrava com aquele mundão de água, por um mendigo que, de mão estendida, pediu:
-Me dê uma esmolinha, major!
O presidente sorriu, tirou uma nota de 20 contos do bolso, entregou-a ao pedinte mas, antes, o corrigiu:
-Olhe, não sou major e sim general.
E o matuto:
-Desculpe. É que aqui a gente gosta de tratar bem as pessoas.




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