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Um estranho no ninho

14 de julho de 2026

Ouvia no rádio um conhecido comunicador desmentir um colega que denunciara uma autoridade, acusando-a de praticar assédio sexual. O comunicador dizia que o colega mentira, fizera a acusação por vingança e que telefonara para o denunciando para lhe emprestar irrestrita solidariedade. O dono do programa fez eco à solidariedade do comunicador.

E eu fiquei convicto de uma coisa: esse jornalismo que se pratica hoje não é o meu jornalismo. Sou de uma época que já morreu e somente eu não sabia. Na minha época jornalista era solidário a jornalista,os de fora que cuidassem das suas vidas. Mas agora a coisa mudou, cada um que cuide de si e quem não se cuidar, que morra na curva da estrada.

Na década de 60 os filhos de um prefeito surraram um colunista social que criticou o seu pai. O mundo veio abaixo. API soltou nota, Sindicato de Jornalistas fez o mesmo, colunas foram escritas denunciando a violência e pedindo providências, nunca se viu união tão forte. Em 70 aconteceu a mesma coisa. Um colega apanhou dos filhos do prefeito e os colegas correram pra cima, tomaram as dores, moveram céus e terras exigindo justiça.

Vivi os tempos de uma API gloriosa, de um Sindicato forte, de jornalistas que não tinham dinheiro, mas tinham moral de sobra para peitar qualquer autoridade e exigir respeito.

Hoje se presta solidariedade a quem é criticado por jornalista, isso é estranho, é incomum, não faz parte do meu mundo.

Começo a acreditar que sou um estranho no ninho. 

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