Destaques

Viuge!

18 de setembro de 2026
Pagamentos a empresa ligada ao filho de Kassio Nunes Marques coincidem com julgamento em que ministro tomou decisão favorável aos negócios de Vorcaro
Trecho da troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu advogado de confiança, Luiz Rennó - Crédito: Reprodução
Trecho da troca de mensagens entre Daniel Vorcaro e seu advogado de confiança, Luiz Rennó – Crédito: Reprodução

Às 16h48 de 8 de agosto de 2025, o banqueiro Daniel Vorcaro recebeu uma mensagem de Luiz Rennó, seu advogado de confiança, que atuava como assessor jurídico do Banco Master. “Dos pagamentos essenciais está faltando a consult”, alertou Rennó. Ele se referia à Consult Inteligência Tributária, empresa criada em 2022 por Francisco Craveiro, um contador que é amigo de longa data de Kassio Nunes Marques, ministro do STF.

As transações entre o Master e a Consult são conhecidas desde março deste ano. Um relatório do Coaf detectou que, entre agosto de 2024 e julho de 2025, o banco de Vorcaro fez catorze transferências para a empresa, somando 6,632 milhões de reais. A Consult, por sua vez, transferiu nesse mesmo período 282 mil reais para Kevin Marques, filho do ministro do STF – levantando a suspeita de que a empresa fosse apenas uma intermediária por meio da qual ele recebia dinheiro do Master. Kevin sempre negou.

Agora, novas mensagens extraídas do celular de Vorcaro agravam essa suspeita. No dia 8 de agosto, segundos depois de alertar o banqueiro sobre o pagamento “essencial” que precisava ser feito, Rennó mostrou para ele o cartão de contato de Kevin e escreveu: “Aqui.” Vorcaro respondeu com um “Oi”, e o advogado prosseguiu: “Esse aí.” “Único ‘meu’ que faltou.” Meia-hora depois, ele retornou para avisar ao chefe: “Foi pago.”

Não foi o único diálogo em que o nome de Kevin Marques apareceu associado a pagamentos. Um mês antes, no dia 4 de julho, o assessor jurídico do Master havia perguntado a Vorcaro: “Esse aqui – 500 mil mês – mantém?” A mensagem, novamente, marcava o cartão de contato de Kevin, para deixar claro de quem Rennó estava falando. Na sequência, o advogado deu uma risada – “Kkkkkkkkk” – e disse: “Então esse aqui já era né”. O banqueiro respondeu um minuto depois, também com um “Kkkk”.

Crédito: Reprodução

A troca de mensagens veio à tona na terça-feira (15), depois que o conteúdo do celular de Vorcaro foi compartilhado com o gabinete de alguns ministros do STF, a pedido deles. O diálogo acrescenta uma nova camada às revelações que já haviam sido feitas sobre a relação entre Kevin e o Master, detalhadas em reportagens da piauí em março e abril.

A primeira novidade é o fato de que, nas mensagens de Vorcaro, o pagamento para a Consult está diretamente associado ao filho do ministro. A segunda novidade é a referência aos “500 mil mês”. Divididos em catorze transferências ao longo de um ano, os 6,6 milhões de reais que o Master transferiu para a empresa resultam em 474 mil reais por transferência, em média. É um valor próximo aos 500 mil mencionados por Vorcaro, embora não haja elementos para afirmar se as parcelas obedeceram a essa média e se os dois valores estão relacionados. Também não se sabe se, depois do “Kkkk”, Vorcaro respondeu à pergunta de seu advogado (“Esse aqui – 500 mil mês – mantém?”).

Mas há ainda uma terceira novidade. As transferências de dinheiro do Master para a Consult coincidem com o período em que a Segunda Turma do STF – à qual pertence Nunes Marques – julgava um processo de grande importância para o banco. Era o caso da Destilaria Alcídia, que cobrava da União a reparação de prejuízos causados na década de 1980. Como mostrou uma reportagem da piauí, a decisão do Supremo teria impacto direto sobre a carteira de precatórios do setor sucroalcooleiro no balanço do Master, que somava mais de 10 bilhões de reais, segundo as estimativas da PF. Para Vorcaro – que naquele momento precisava de liquidez para evitar a falência –, era crucial que a Alcídia ganhasse, já que a decisão também impactaria processos de interesse do seu banco.

Foi o que aconteceu – e com um voto decisivo de Nunes Marques.

O ministro, num primeiro momento, não participou do julgamento. Na sessão virtual que transcorreu entre 9 e 20 de fevereiro de 2024, a certidão emitida pelo STF registra: “Impedido o ministro Nunes Marques.” Ele não votou. Justificou o impedimento afirmando que, em outubro de 2018, quando era desembargador do TRF-1, havia julgado um recurso do caso Alcídia, inclusive presidindo a sessão e assinando o acórdão. É uma medida prevista no Código de Processo Civil: para garantir um julgamento imparcial, recomenda-se que um mesmo juiz não decida sobre um processo em duas instâncias.

Mas, rapidamente, Nunes Marques voltou atrás na decisão. No mês seguinte, em março de 2024, produziu um despacho afirmando que seu impedimento havia sido registrado “por equívoco da assessoria do gabinete”. Afirmou que, na sua interpretação, o recurso julgado no TRF-1 não interferia no julgamento do STF. “Afasto o impedimento lançado no sistema, declarando-me habilitado a votar”, concluiu. Determinou que a decisão fosse comunicada ao presidente da Segunda Turma, ministro Dias Toffoli, e assim foi feito.

O processo, àquela altura, estava empatado em 2 a 2 (Toffoli e Fachin haviam votado a favor da Destilaria Alcídia; Gilmar Mendes e André Mendonça, contra). Depois da reabilitação de Nunes Marques, o caso demorou a voltar à pauta. Por um tempo, ficou empacado nas mãos de Gilmar, e em 17 de setembro foi liberado para uma sessão presencial. Em seguida, Nunes Marques pediu vista. Finalmente, em 1º de outubro, ele devolveu o processo à Turma e apresentou um voto de dez páginas, no qual conclui: “Acompanho o Ministro Relator, pedindo vênia aos que divergem de Sua Excelência.”

Com seu voto, o placar foi de 3 a 2 em favor da Alcídia, como Vorcaro queria. Na conversa de WhatsApp, Luiz Rennó não tardou a comemorar. “Ganhamos alcidia”, escreveu em mensagem a Vorcaro, às 16h58 daquele dia. Enviou o placar – “3 (Fachin/Tofoli/Cassio) x 2 (Gilmar e André)”, ao que Vorcaro respondeu com um emoji: “👍🏻”. Quatro minutos depois, Rennó retornou à conversa e, sinalizando novamente o cartão de contato de Kevin Marques, escreveu para o chefe: “Dominado aqui.”

Indagado pela piauí sobre sua participação no julgamento da Destilaria Alcídia, Nunes Marques afirmou, por meio de sua assessoria, que “compreendeu que tecnicamente não estava impedido, por se tratar de tese ampla”, e que “votou diversas vezes no mesmo sentido enquanto estava no TRF-1”. Segundo ele, relacionar o julgamento e os repasses da Consult é uma “ilação maldosa”, já que “o recurso julgado não era do Master e o serviço prestado pelo filho do ministro foi efetivo e devidamente declarado, tendo ele recebido 10 parcelas de cerca de R$ 28 mil cada”. Sobre o diálogo de Vorcaro e Rennó, a assessoria de Nunes Marques afirmou: “Embora na mensagem eles estivessem comemorando o resultado, não se tratava de ação sobre o Master, era uma tese que se aplicaria a diversas empresas. O ministro nunca votou a favor do Banco Master, e o filho nunca recebeu dinheiro de Daniel Vorcaro.”

Kevin Marques seguiu a vocação do pai. Tornou-se advogado e, embora não tenha ainda completado três anos de carreira, já acumulou uma pequena fortuna. Em julho, a Folha de S.Paulo revelou que ele acumulava 27,7 milhões de reais aplicados em fundos de investimento. Na Consult, o filho do ministro não possuiu participação formal, mas mantém relações financeiras e societárias com os donos da empresa, que foi criada em março de 2022, no endereço de uma loja na Asa Sul, em Brasília. Inicialmente, o contador Francisco Craveiro, velho amigo de Kassio Nunes Marques, dividia as cotas com um irmão. Meses depois, passou a maior parte delas para o filho, Gabriel Campelo de Carvalho.

Em 9 de maio de 2024 – antes de Nunes Marques votar no caso Alcídia, mas depois de ter se declarado apto para tal –, a Consult passou por duas alterações societárias. Primeiro: seu capital social, que até então era de 10 mil reais, saltou para 500 mil reais. O documento não informou a origem dos 490 mil reais que entraram. Segundo: o controle da empresa mudou de mãos. Gabriel, que antes tinha 95% das cotas, passou a ter apenas 5%. Seu pai, Francisco Craveiro, fez o caminho inverso: de 5%, subiu para 95%.

A mudança se consumou de vez em 30 de julho. Nesse dia, Gabriel deixou formalmente a Consult, e Craveiro, com isso, tornou-se o único dono. No mês seguinte, a empresa começou a receber as transferências vultosas que chamaram a atenção do Coaf. No decorrer de um ano, o cofre da Consult foi abastecido com 11,38 milhões da JBS, a empresa dos irmãos Batista, e 6,62 milhões do Master. As cifras milionárias contrastam com o faturamento modesto declarado pela empresa, de apenas 25.555,56 reais por mês.

A Consult, enquanto isso, fazia os repasses a Kevin Marques. Ao todo, foram 282 mil reais, divididos em onze operações, segundo o relatório do Coaf. Em nota enviada à piauí, Kevin afirmou que os pagamentos foram uma remuneração por “serviços jurídicos especializados na área tributária administrativa”. Disse também que “não prestou serviço ao banco Master nem recebeu dinheiro do banqueiro Daniel Vorcaro”, e que sua atuação junto à Consult “não tem qualquer relação com o Supremo Tribunal Federal”.

Mas os laços de Kevin com a Consult vão além dos repasses detectados pelo Coaf e das mensagens trocadas entre Vorcaro e Luiz Rennó. Em 2 de outubro, dia seguinte ao voto de Nunes Marques que favoreceu a Alcídia – e, por tabela, o Master –, a sede da Consult foi transferida de Brasília para um escritório em um condomínio empresarial de Alphaville, Barueri. No mês seguinte, nesse mesmo endereço, Kevin e Gabriel Campelo –  que tem parte da Consult – criaram outra empresa, chamada Instituto de Pesquisa e Gestão Tributária (IPGT). Kevin ficou com 70% das cotas, e Gabriel, encarregado de ser o administrador legal, com 30%. Francisco Craveiro foi escolhido como contador.

As transações da Consult não são o único ponto de contato entre Nunes Marques e o Master. A investigação da PF se deparou com uma conversa de WhatsApp, com a data de 5 de dezembro de 2024, em que Leo Serrano Giunchetti, empresário e agente de viagens, pergunta para Daniel Vorcaro: “Dani… veio de você este? E se sim, é pra atender ele independente ou faço e faturo pra vc?” Giunchetti estava se referindo a um print que acabara de compartilhar com Vorcaro, no qual aparecia uma mensagem enviada por um usuário com o nome e o número de Nunes Marques. A mensagem dizia assim:

Bom dia Leo

Ministro Kassio

Preciso da sua ajuda para formatar uma viagem uns 10 dias, entre 8 e 18 de janeiro, para 5 pessoas.

De preferência com guias e motoristas de Vans que falem português ou espanhol.

Inicialmente imaginei Viena, com bate volta nas cidades próximas como Bratislava, Budapeste, Graz ou Salzburgo.

Outra opção seria o Peru.

Mas estou aberto a outras opções se tiverem algum roteiro pré-programado.

Muito obrigado.

Vorcaro não respondeu. Uma hora depois, Giunchetti mandou nova mensagem para ele: “Me avisa Dani! So pra eu saber como responde-lo please.” Três horas depois, ainda sem resposta, o agente de viagens enviou cinco interrogações seguidas. Os trechos divulgados nesta terça-feira (15) não permitem saber se Vorcaro respondeu e se a viagem, afinal, aconteceu. O ministro Nunes Marques nega. Por meio de sua assessoria de imprensa, afirmou que “apenas cotou preços e nunca utilizou os serviços da agência mencionada”. Giunchetti, por meio de seu advogado, Rogerio Cury, também afirmou à piauí que a viagem não se concretizou. Nenhum dos dois negou a autenticidade da mensagem.

Também vazou, nesta terça-feira (15), uma conversa de Vorcaro com uma mulher identificada apenas como Rayanna. Em 7 de março de 2025, ela apresentou ao banqueiro uma cobrança em nome de uma amiga. “Ela disse que ficou com o Kassio. Ela tá me cobrando aqui”, escreveu. Vorcaro respondeu: “Me manda aqui. Dados e valor.” Ao que Rayanna respondeu “10 né!”, enviando, em seguida, o nome e o e-mail da amiga. A piauí procurou Rayanna, que afirmou desconhecer o episódio. As mensagens não permitem estabelecer quem era “Kassio” nem se houve pagamento. A assessoria de Nunes Marques afirmou que “o ministro não tem conhecimento sobre o contexto” dessas mensagens.

Há, por fim, um outro indicativo da proximidade entre Nunes Marques e Vorcaro. Em 12 de novembro de 2025, seis dias antes de ser preso, o banqueiro enviou à advogada Camilla Ewerton Ramos, que atuava para o Master em processos de recuperação de créditos do setor de álcool, o contato de uma profissional de aviação executiva. Naquela mesma noite, a profissional informou diretamente a Vorcaro que “confirmaram [uma viagem] no [jato] Legacy” para o voo “da Sra Camila”, que sairia de Brasília, e perguntou se havia “alguma recomendação extra” além do champanhe e do uísque já solicitados. “Coloca dom perignon e whiskey macallan e um japones”, respondeu o banqueiro.

A troca de mensagens não cita passageiros. O que se sabe é que, dois dias depois, Nunes Marques e sua mulher embarcaram num Legacy 650 saindo de Brasília rumo a Maceió, onde compareceram à festa de aniversário de Camilla. O jatinho era operado pela Prime Aviation, empresa da qual Vorcaro foi sócio até setembro de 2025. A viagem foi revelada pelo Estadão em abril. O gabinete do ministro confirmou que Camilla “ficou responsável pelo voo e detalhes da viagem”. A advogada afirmou ter contratado o jato pessoalmente.

Desde 26 de março, Kassio Nunes Marques é relator de um mandado de segurança que pede ao STF que obrigue o presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), a instalar uma CPI do Banco Master. O requerimento reuniu 53 assinaturas de senadores, quase o dobro das 27 exigidas pela Constituição. Até agora, passados quase seis meses, o ministro não assinou sequer um despacho no processo. No mesmo período, porém, votou pela manutenção da prisão preventiva de Vorcaro e de outros investigados do caso.

Nesta terça-feira (15), na abertura da sessão extraordinária para avaliar o pedido de investigação contra Alexandre de Moraes, Nunes Marques pediu a palavra para fazer o que chamou de “um esclarecimento e um registro”. Disse que nunca havia usado a tribuna do Supremo para dar explicações, mas que “hoje o dia é relevante e a gravidade das circunstâncias merece”. E reforçou, em seguida, o que já havia dito em notas à imprensa: “Em relação a mensagens que circulam de ontem, de hoje e que sempre vão rondar autoridade no Brasil, eu nunca julguei nenhum processo relacionado ao Master.”

O ministro defendeu a própria atuação e a do filho. Afirmou que Kevin nunca prestou serviços nem foi remunerado pelo Master e sustentou ter “absoluta isenção” nos processos que julgou. Também negou ter trocado mensagens diretamente com Vorcaro. Ao final da fala, declarou-se impedido de participar do julgamento. Mas o motivo, segundo ele, era de outra natureza: como presidente do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), achou que a decisão daquele dia poderia conflitar com sua atuação nas eleições. Quanto aos possíveis conflitos de interesses com o Master, não disse nenhuma palavra.

Você pode gostar também

Sem Comentários

Deixar uma resposta

Este site utiliza o Akismet para reduzir spam. Saiba como seus dados em comentários são processados.

5