Domingueiras do Tião
O BANDEJÃO

Houve um tempo em que jornalista era pobre. Aqui, na Paraíba, contava-se nos dedos quem tinha dinheiro para comprar um carro. Se lembro bem, apenas Marcelo da Rocha, Varandinhas e Heitor Falcão possuíam seus veículos e isso, diga-se, porque tinham outros empregos, Varandas era Advogado de Ofício e Heitor funcionário da Justiça, o que possibilitava o aumento no poder aquisitivo.
Por isso, a turma tinha que fazer malabarismos para escapar. O de comer, por exemplo, era minguado e a mesa somente ficava farta quando dos jantares e almoços dos políticos nas confraternizações natalinas. No resto do ano, escapava-se com a sopa no Ponto de Cem Réis, ou, então, filando a bandeja do Restaurante Universitário.
Chico Pinto sempre passou bem, pois tinha lábia para derrubar avião. Basta dizer que ele foi o único a conseguir derrubar o arcebispo Dom José na conversa. Chegou para ele todo choroso e contou que estava prestes a desistir do vestibular, porque não tinha o dinheiro da inscrição. Dom José apiedou-se, puxou a carteira do bolso da batina e passou para Pinto a verba educacional, que foi gasta numa rodada de cerveja na Flor da Paraíba.
Como repórter, Pinto aproximou-se do capelão Eurivaldo Caldas, major da PM e historiador. Fez umas cinco reportagens com ele e, depois de amaciá-lo, contou seu drama: a fome que estava passando, a falta de vitaminas para sobreviver. O bom velhinho não conteve as lágrimas e determinou que a partir daquele dia Pinto comeria no rancho do quartel, junto com os soldados e cabos. Pinto comeu tanto que começou a engordar.
Acontece que seu companheiro de farras e desditas, Armando Nóbrega, ao saber da novidade, quis, também, entrar na fila do rancho. Tanto pediu, tanto insistiu, que Pinto concordou levá-lo ao Padre Eurivaldo. Feitas as apresentações, o capelão concordou com a entrada de Armando na fila do bandejão. E Armando, querendo agradar o padre, indagou-lhe com seu sorriso matreiro:
– Seu padre, quando é que o senhor vai virar papa?
Padre Eurivaldo botou os dois para fora da sala e, chamando o ordenança, determinou: “Se aparecerem para comer a boia de vocês, metam os dois na cadeia”.
A CARIOCA

Eu me propus a esquecer o assunto política nas Domingueiras, mas abro exceção para a moça do salão de beleza que trocou o Rio por João Pessoa. Não a conhecia, mal a conheci, cheguei no local e a encontrei pendurada ao celular. Soube depois que esperava o marido, militar da reserva que se tornou conterrâneo por não resistir às belezas de nossa Capital.
Durante o período em que estive no salão, a moça só tirava os olhos do celular para comentar o que via. E todos os comentários eram contra o que chamava de “petezada”. Sua maior revolta: “A petezada agora quer usar nossa camisa”. Referia-se às cores verde e amarela que Lula e seguidores adotaram por considerarem que o verde e o amarelo não são marca registrada de ninguém em especial.
E eu fiquei a matutar: o que essa carioca está fazendo aqui na terra do Lula?

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