Por GILBERTO CARNEIRO
É Copa do Mundo. Atenções se voltam para o espetáculo futebolístico mundial que acontece a cada quatro anos, cada vez mais elitista, afinal só os muitos ricos podem dispor de condições para adquirir ingressos de valores surreais, R$ 90.000,0O, podendo chegar a R$ 300.0000,00 nas etapas finais do torneio.
Enquanto isso, na Venezuela, dois terremotos provocaram quase 1.500 mortos, mais de 3.300 feridos e 50 mil desaparecidos, inclusive brasileiros. O país está devastado, embaixo de escombros, soterrando vidas, histórias e famílias.
Diante de uma tragédia dessa dimensão, a indiferença de parte da sociedade brasileira não é ausência de informação. É escolha. O que falta não é informação, mas admitir que nos importamos menos quando quem morre é pobre, latino-americano, africano ou politicamente inconveniente.
Há uma contabilidade macabra na forma como distribuímos empatia. A comoção pública costuma ser inversamente proporcional à distância do ocorrido, mas também da pobreza do país ou do grupo social atingido. Quando a tragédia acontece no mundo desenvolvido, sobram lágrimas, minutos de silêncio, monumentos iluminados, bandeiras em perfis de redes sociais e discursos solenes sobre a fragilidade da vida humana. Quando o chão se abre no Sul Global, a reação, não raro, é um dar de ombros, como se a dor de alguns povos viesse no pacote de fábrica da existência.
Essa lógica indecente também opera dentro do Brasil. Temos um luto de primeira e segunda classe. Quando lama, enchente, desabamento ou violência policial matam trabalhadores, moradores de periferia, pessoas em situação de rua ou famílias empurradas para áreas de risco, o país trata o saldo de corpos como fatalidade, estatística ou rodapé. Um “efeito colateral” do clima, da pobreza ou da segurança pública.
Mas como bem bradou Leonardo Sakamoto basta a tragédia subir a serra, atravessar a portaria do condomínio ou alcançar gente com sobrenome e influência para que tudo vire catástrofe nacional. A comoção ganha sirene, plantão, helicóptero, pronunciamento e pressa do Estado. A diferença não está no tamanho da dor, mas no valor social atribuído a quem morreu.
O Brasil tem sua terceira maior fronteira com a Venezuela, ou seja, é nosso quintal. Está infinitamente mais perto, geográfica e culturalmente, do que os Estados Unidos ou a Europa. Ainda assim, tiroteios em escolas norte-americanas, incêndios na Califórnia ou enchentes em cidades europeias costumam gerar uma comoção muito mais rápida e visceral do que 1.500 vizinhos esmagados por terremotos.
A ndiferença diante da Venezuela revela mais sobre nós do que sobre ela. Mostra que, apesar de nos vendermos como povo solidário, seguimos escolhendo quem merece luto, quem merece manchete e quem pode ser enterrado no silêncio. Ainda mais um país que vive uma sequência de tragédia, com autoritarismo, golpes e invasão de potência estrangeira.
O governo brasileiro ainda procurou fazer sua parte. Enviou ao menos três vôos humanitários com insumos e medicamentos e reforço para ajudar no resgate das vitimas.
Grande parcela da sociedade brasileira, no entanto, manteve-se indiferente.Nada disso importa. A Venezuela sequer está na Copa e temos preocupações mais urgentes. Ganhar do Japão mais tarde e avançar para as quartas de final. Solidariedade à Venezuela por questões humannitarias e torcida pelo Brasil, ao mesmo tempo, não é uma opção.




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