As primeiras do dia

Em 1975, quando aportei em João Pessoa, o Estado era governado por Ivan Bichara Sobreira. Era um homem calmo, de boa conversa, conciliador. Pois Ivan, detentor de uma numerosa bancada de deputados, acreditou na fidelidade dos seus aliados e deixou o Governo seis meses antes dele terminar para disputar o Senado. Metade dos seus apoiadores o traíram e votaram em Humberto Lucena, que se elegeu. Para se ter uma idéia, Ivan teve menos votos do que Bosco Barreto, que disputou sem dinheiro, só tomando cachaça.

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Burity, o sucessor de Ivan, fez um Governo porreta. Cuidou dos flagelados da seca, impediu que as mulheres da seca tivessem seus pagamentos suspensos e construiu obras, muitas obras. Virou líder e, com sua liderança, elegeu o sucessor, Wilson Braga. Braga, assim que tomou posse, mandou despejar Giselda Navarro, cunhada de Burity, da direção do Espaço Cultural. E passou quatro anos brigando com seu antecessor.

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No Governo, Braga cuidou de formar uma grande base eleitoral.Se tornou imbatível. Era paparicado, endeusado, chamado de “meu ceguim”. No final do Governo, passou o comando da Granja a Milton Cabral e se candidatou a senador. Perdeu pra Raimundo Lira, um simples vendedor de carros. Os amigos correram dele e foram aterrissar no terreiro de Burity, que voltava com tudo ao governo do Estado.

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O segundo governo de Burity foi muito dinâmico, mas da metade para o fim o então PMDB sabotou tudo o que ele pedia à Assembléia e ao Congresso Nacional. E Burity terminou com quatro meses de salários atrasados. Os amigos, os diletos apoiadores, aqueles que cantavam o nome de Burity de Cabedelo a Cachoeira dos Indios correram para os braços de Ronaldo Cunha Lima.

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Ronaldo passou os quatro anos em paz. No finzinho, deu três tiros em Burity, mas nem por isso deixou de se eleger senador. A rebordosa pra ele aconteceu no mandato de Zé Maranhão, que assumira com a morte de Antonio Mariz. Maranhão levou uma dedada na venta em festa no Campestre e rompeu com Ronaldo. Era o aniversário de Ronaldo e Maranhão foi à festa com uma equipe encarregada de soltar bombas à sua passagem. Como o tiroteio de Maranhão foi mais retumbante do que o tiroteio de Ronaldo, este perdeu a paciência e destratou Maranhão em público. Foi o maior fuá.

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Maranhão terminou o mandato e se reelegeu governador, aproveitando-se da anemia eleitoral do seu oponente, Gilvan Freire. Mas aí veio a guerra. Ronaldo queria comandar o PMDB, Maranhão não deixou, fizeram uma convenção, Maranhão trancou os convencionais num hotel em Natal e só os soltou na hora de votar. Os Cunha Lima tiveram que bater asas para o ninho tucano.

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Veio 2003. Maranhão deixou o Governo para disputar o Senado. Roberto Paulino assumiu no seu lugar, tomou gosto pela cadeira e se candidatou a reeleição. Cássio Cunha Lima, ainda ferido com as lamboradas desferidas no seu grupo, o enfrentou e venceu o pleito.

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Nessa eleição de 2003 Cássio tinha na chapa dois candidatos ao Senado: Wilson Braga e Efraim Morais. Havia duas vagas e uma delas era de Braga, dizia-se. Mas aí aconteceu um fenômeno: Maranhão teve votação maciça ao lado de Efraim em Santa Luzia e em Campina Grande os eleitores de Braga rumaram para a chapa maranhista. E o resultado foi este: Roberto Paulino derrotado para o Governo, Cássio Cunha Lima eleito governador e , para o Senado, Zé Maranhão em primeiro lugar e Efraim Morais em segundo.

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Em 2008 houve a reeleição. Cássio ganhou de Zé Maranhão mas só governou dois anos. Zé conseguiu tira-lo pela via judicial e assumiu o Governo, tendo Luciano Cartaxo como vice-governador.

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Estão percebendo como, na Paraíba, trair e coçar é só começar?

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Amanhã eu continuo contando essas demonstrações de amor fiel.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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