Como nossos pais.

Marcos Pires

Desculpem trazer um travo ao domingo de vocês. É que desde muito tempo esse assunto está aguardando na prateleira da minha memória à espera de uma oportunidade que a mídia convenientemente não proporciona.

Começo com uma antiga história contada por minha avó Joana Batista, que me ensinou não somente a ler, mas principalmente a gostar de ler. Passava-se na gélida Rússia, e basicamente era sobre uma avó que pede ao neto para acompanha-la numa visita ao local da floresta onde será levada no próximo ano pelo filho para morrer, porque era esse o costume da aldeia. Se o frio não a matasse os lobos cuidariam de tudo.

Noves fora o impacto da narrativa que minha avó enriquecia com uivos e outros truques e efeitos sonoros, é mais ou menos isso que muitos filhos fazem com seus pais. O esquecimento dói mais que a morte, porque vai se esticando no tempo e aumentando o sofrimento. Não basta a conversa protocolar, o bom dia ou aquele “está tudo bem?” que ao invés de ser curiosidade já é uma despedida antecipada ao telefone, por mais diário que seja.

De Londres minha linda amiga Dada Novais informa que foi criado recentemente na Inglaterra o Ministério da Solidão, que vai funcionar conjuntamente com o Ministério da Saúde e Assistência Social. Mas não é bem isso o que trato aqui. Me preocupa até bem menos a questão do sofrimento de pais e mães esquecidos pelos filhos do que a dor permanente e progressiva que os filhos sentirão depois que os pais morrerem, sabendo que não deram a atenção devida quando foi possível e depois de sua partida não haverá como remediar isso.

De minha parte, como adoro meus filhos e netos, cuidei desde cedo para que eles não sofram quando eu embarcar daqui a uns 50 anos. Ensinei-os a beijar e abraçar sempre que nos encontramos. Não espero que eles me telefonem; eu mesmo ligo todos os dias, às vezes inventando assuntos, mas todos os dias nos falamos. Aliás, sobre isso de abraçar e beijar, já notei que não são muitos os que agem assim. Principalmente com Pedro, vez por outra noto um olhar no mínimo curioso dos espectadores que veem nosso cumprimento matinal.

Portanto, amigos leitores, se vocês forem daqueles felizardos que ainda tem pais vivos, beijem e abracem esse tesouro todos os dias. E se vocês tem filhos tomem a iniciativa para que eles não sofram quando for tarde demais.

Pronto; suavizei mas disse o que queria!

1 Comentário On   Como nossos pais.

  • Apesar de ter cuidado dos meus pais quando eles eram velhinhos, sempre fica aquele sentimento de que dava pra ter feito mais, de poder ter feito melhor.
    A verdadeira saudade eu senti quando eles se foram.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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