Ensarilhando as armas

O coração criminoso tem matado muita gente ultimamente. O professor Biu, coordenador do curso de medicina da UFPB, foi dormir e acordou morto. Anacleto Reinaldo também não acordou mais. Não sei se com Fernando Vilar aconteceu a mesma coisa, mas parece que a morte dele foi súbita e na surdina. Célio di Pace morreu tomando banho.

Toda vez que um conhecido morre, ligo pra Chico Pinto e pergunto o número da senha dele. Chico acha ruim, manda eu me lascar. Ele tem medo de morrer. Se caga de medo.

Aliás, pra ser sincero, quero ver um valente não se melar todinho diante da morte.É natural que assim seja. Dos que conheço, só Vavá da Luz se gaba de ser imortal. Mas é porque ele acha que a indumentária colocada nele por Doutor Osório Abath serve para outras coisas além de cheirar a borracha queimada quando em uso.

Faço estas considerações enquanto aguardo o medicamento que dona Cacilda vai trazer. Faz uma semana que estou no estaleiro. Três hérnias de disco, uma gripe de lascar e uma coronária entupida pela metade. Doutora Yane, minha cardiologista e vigia dos meus passos, já avisou que a partir de hoje a pancada do meu bombo vai ter que mudar. Nada de sambas enredos ou carnaval da Bahia. No máximo, uma valsa tocada na Ave Maria por um suave violino. E beber, que é bom, somente daqui a muitos alhures.

Dona Cacilda está nas nuvens diante da nova realidade. Nada de João nas noites de sexta, nada do cuscuz na Torre nas manhãs sabadais e aquela meiotinha de Serra Limpa antes do almoço, nem pensar. Pelo menos enquanto durar o consumo de caxetes, capsulas e outros bichos receitados por Doutora Yane.

Agora mesmo ela me chega, toda dengosa, com o copo d`água e o remédio pra dor de junta. Penso logo que essa alma quer reza, mas de logo aviso que o regime passado pela médica é total, de cabo a rabo, sem direito a pequenas extravagâncias ou a consumo de carne carregada.

Mas a vida segue. Melhor ficar vivo longe da lapada de cana, do cuscuz com bode e das noites boêmias do que morrer dormindo, do coração.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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