Rompendo a barreira do silêncio

Marcelo Piancó

Jurei que só ia me indignar e esperançar pelos atingidos e familiares, mas não deu para segurar. Assim como uma barragem mal monitorada, eu me rompi. Primeiro pelos olhos, depois pelas as veias e agora vou fazer escorrer, pelos dedos que garimpam palavras na mente, um monte de sentimentos humanos que não sei direito se são dejetos de caráter, rejeito social ou “dejeito” de alma lodosa.
Foi preciso mais uma barreira se romper para que ficasse mais evidente quanto reforço foi dado na sólida barreira que isola as pessoas neste país. A mesma lama soterrou o ágil coelho, o moroso bovino e o “racional” humano. Então que espécie de lama democrática é esta que não escolhe nem espécie? Esta lama sabe muito bem o quê, em espécie ou não, muito lhe interessa e não adianta argumentar contra a sua natureza. Pois ela está acima de todos, ela subiu financiada na pregação do pastor, foi propagada pelo autofalante da quermesse e ganhou os palanques de todas as cores e correntes.
Esta lama é o discurso de ódio que ganha forma pesada e pastosa, é o preconceito que soterra as oportunidades para quem não veio da casa grande, ela é o chumbo que persegue o cidadão trans, o sêmen no ombro da trabalhadora que chacoalha no trem lotado, ela é baba que escorre da boca do playboy que herda uma cadeira na câmara por ser filhinho de papai. Ela é da cor da fome de quem engole as riquezas da nação e vomita honestidade. Também tem a consistência do eco dos iludidos, ela é da cor das mãos sujas do petróleo saqueado, explorado e entregue. É a substância que preenche o vazio de quem cospe preconceito. Mas é também a cara do Brasil de ontem, de hoje e de sempre. Talvez esse país nunca fique acima de todos, mas uma boa parte dele está covardemente acima( e em cima) de muita gente.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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