Seu Adolfo Passarinho

Seu Adolfo era a cara do meu pai. Ou melhor dizendo, era a cópia fiel no proceder. Sertanejos, gostavam da roça, da feira, da boa comida, da conversa em torno do balcão da mercearia, do chamego com os filhos e da toada de fim de tarde a anunciar a chegada da Ave Maria.

Seu Adolfo era da Bahia, meu pai veio de Alagoas. Em comum, além de tudo isso, o gosto pela família grande. Meu pai e dona Emília botaram 14 no mundo. Seu Adolfo e Dona Anatália botaram 13. De Seu Miguel e Dona Emília se criaram nove; de Seu Adolfo e Dona Anatália, também 9.

A comparação que faço entre os dois reside no laço fraternal, quase de irmãos, que me une ao filho de Seu Adolfo, Gilberto Carneiro.

Nos conhecemos no meio do caminho, mas nem por isso a amizade que nasceu entre nós foi medida pela metade. Ao contrário, firmou-se nos alicerces da verdade e se ergueu nas paredes do coração.

Havia uma diferença entre nós dois: até hoje à tarde Gilberto tinha Seu Adolfo e eu não tinha mais Seu Miguel.

Seu Adolfo partiu no final do dia para a eternidade.

Saiu voando como um passarinho, singrando o céu buscando a luz destinada aos justos e deixando no caminho as lágrimas de saudade vertidas pelos olhos dos seus meninos e da sua amada de uma vida inteira.

Não levou as rapaduras que adorava saborear depois das feiras de Umburana.

Nem as goluseimas que sabia preparar na Padaria do Eurico.

Mas deixou eternizada a canção do Padre Zezinho que ouvia com a meninada nas manhãs domingueiras cheias de “utopias”.

Que descanse em paz.

E nos aguarde num mundo onde as injustiças sejam conhecidas apenas por ouvi dizer.

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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