As mortes de Pinto

   Marcos Pires

Vou logo avisando; se vierem com uma conversinha de que Pinto do Acordeom morreu, não acreditem.

A primeira vez que essa notícia circulou tem tempo. Naquela ocasião os vizinhos de Pinto, na sua cidade de Patos, ficaram chocados. Muito querido onde quer que vá, chega a ser idolatrado por lá. Comovidos, cuidaram de preparar os comes e bebes para o velório, como é costume no interior. Uma vizinha fez pamonhas, a outra fez mungunzá, os amigos cuidaram de estocar cachaça e gelar cervejas…enfim, tudo pronto para chorar o meu compositor de cabeceira.

Lá pelas cinco da tarde chegou o desmentido da tragédia. Pinto gozava de plena saúde e estava inclusive em excursão artística, encantando o mundo com sua arte. O que não impediu uma vizinha muito cruzeta de colocar as mãos nos quadris e reclamar com o marido: “ – Mas esse Seu Pinto faz cada presepada com a gente, né?”.

De outra feita o queridíssimo compositor de “Neném” chegou em casa às sete da manhã, bêbado até a terceira geração. Claro que à porta estava Dona Madalena, anjo de guarda da família e de minha mãe (explico mais adiante), não muito satisfeita com a situação, se é que vocês me entendem. Quando ela ia começar a reclamar, Pinto assoou o nariz e compungidamente disse: “- Ah, Madalena, eu estava até agora no velório de compadre Edivaldo Mota. Vou dormir, me chame às dez horas para irmos ao enterro”.

Como combinado, às dez horas Dona Madalena foi acordar o marido para irem ao enterro do querido compadre: “- Havia, Pinto, vai te arrumar para irmos ao enterro do compadre Edvaldo Mota”. Pinto sentou na cama, aboticou os olhos e abriu o peito: “- Como é? Compadre Edvaldo morreu? Como assim; nós estávamos bebendo até as sete da manhã. De que foi que ele morreu?”.

Por essas e mais uma centena de histórias iguais e por muitas outras razões é que Pinto não pode morrer tão cedo. Tranquilamente segue vivendo e encantando o mundo, já que seu lugar no céu está garantido. É que Deus adora os homens bons. Nesse quesito eu tenho um testemunho guardado. Quando minha mãe se elegeu Vereadora aqui em João Pessoa, não tínhamos grana para nada. Graças a Pinto e Dona Madalena, Creusa Pires tomou posse encadernada em um belo e caro vestido amarelo.

Bota pra lascar na vida, amigo!

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Sobre Tião Lucena

Sobre Tião Lucena

Tião Lucena, nascido e criado no Sertão, é jornalista desde 1975, tendo começado em A União como repórter e trabalhado em O Norte, no Correio da Paraíba, no Jornal O Momento e no jornal de Agá.

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